Mulher de 91 anos é inspiração na Bahia com rotina de trabalho e solidariedade
Às 4h da manhã, quando boa parte da cidade de Acajutiba, a cerca de 180 quilômetros de Salvador, ainda dorme, Barbara Loiola já está de pé. Ela alimenta as galinhas, cuida do periquito, prepara o café e segue para a casa de farinha. A rotina poderia ser atribuída a alguém décadas mais jovem, mas pertence a uma mulher de 91 anos que transformou trabalho, coragem e solidariedade em legado.
Conhecida na região como "Nelita da Farinha", Dona Nelita construiu a própria história com as mãos calejadas pela lida na roça. Aos 20 anos, comprou a primeira propriedade rural e começou a plantar mandioca. Não tinha riqueza nem facilidades, apenas a determinação de quem acreditava que o trabalho era o caminho para vencer.
Ao longo da vida, enfrentou períodos difíceis, inclusive as secas severas que castigaram o interior baiano. Em vez de desistir, encontrou maneiras de seguir em frente. Chegou a vender farinha de qualidade inferior em tempos de escassez, um alimento simples, mas que ajudou a matar a fome de muitas famílias da cidade.
Foi nesse período que conquistou o respeito da comunidade e passou a ser reconhecida pelo apelido que a acompanha até hoje.
Baiana enfrentou a seca, criou 18 filhos adotivos e segue trabalhando aos 91 anos — Foto: Sebrae Bahia
Com o passar dos anos, os negócios cresceram. Vieram novas terras, a casa própria, um pequeno comércio e outras fontes de renda. Dona Nelita criou porcos, passou a revender cereais e investiu no cultivo de amendoim. Sempre enxergando oportunidades, diversificou a produção para garantir o sustento da família.
Mas talvez a maior obra construída por ela não esteja nas terras que comprou nem nos empreendimentos que criou.
Além de criar a própria filha, Dona Nelita acolheu 18 filhos adotivos ao longo da vida. Com o fruto do trabalho na roça, ofereceu moradia, dignidade e oportunidades para cada um deles.
"Eu consegui criar 18 filhos de outras pessoas e dei casas para os 18", conta com orgulho.
Conheça a história da baiana que enfrentou a seca, criou 18 filhos adotivos e segue trabalhando aos 91 anos — Foto: Arquivo Pessoal
Mesmo após nove décadas de vida, ela não consegue imaginar uma rotina longe do trabalho.
"Eu ainda estou trabalhando bem. Queria fazer igual quando eu era mais nova, mas não posso", diz, entre risos.
A aposentadoria nunca foi uma opção considerada.
"Eu nunca pensei em desistir. Eu fico alegre, contente."
O apego ao trabalho é tanto que ela admite sentir falta da movimentação da roça quando permanece em casa.
"Eu gosto de trabalhar junto com meus funcionários. Fico doente quando fico em casa. Vou para a roça com os trabalhadores. Eles arrancam as mandiocas e eu acompanho."
Quando retorna da casa de farinha, a jornada está longe de terminar.
"Tenho que lutar até o dia que Deus quiser. Quando chego em casa, vou lavar roupa, faço comida e não me aquieto não."
Dona Nelita criou porcos, passou a revender cereais e investiu no cultivo de amendoim. — Foto: Arquivo Pessoal
Além da produção de farinha, ela ainda administra um pequeno comércio na cidade.
"Tenho um botequinho, onde vendo cerveja e cachaça. É minha segunda atividade, graças a Deus."
Para o sobrinho Marcos Douglas, de 55 anos, a tia é uma referência de vida.
"Ela é um exemplo. Ela representa dedicação e coragem", afirma.
Segundo ele, as lições deixadas por Dona Nelita vão além do trabalho.
"Cada dia a gente aprende com ela. A preocupação dela é que a gente não fique devendo a ninguém."
O ensinamento virou uma espécie de filosofia familiar, repetida por gerações. — Foto: Arquivo Pessoal
"Cabeça erguida e não dever para ninguém."
Respeitada por todos na cidade, Dona Nelita segue acompanhando de perto cada etapa da produção que ajudou a transformar sua vida. Aos 91 anos, continua acordando antes do sol nascer, fiscalizando a roça, orientando funcionários e provando que a força de uma mulher pode atravessar décadas sem perder a capacidade de inspirar.
LEIA TAMBÉM:
Assista aos vídeos do g1 e TV Bahia 💻
Ops!






