10º Fórum Internacional de Dacar debate desafios de estabilidade e soberania na África
Evento reúne chefes de Estado e representantes de 38 países para discutir soluções sustentáveis para o continente, com destaque para terrorismo no Sahel e cooperação Sul-Sul
نظرة سريعة
- O 10º Fórum Internacional de Dacar sobre Paz e Segurança na África terminou nesta terça-feira (21) na capital senegalesa, reunindo representantes de 38 países e 10 organismos internacionais.
- O evento discutiu desafios como terrorismo no Sahel, integração regional e soberania africana, com participação do Brasil representado pela embaixadora Daniella Xavier.
- Senegal busca projetar influência como mediador estável na região e fortalecer laços com o Sul Global.
ملخص مُنشأ بالذكاء الاصطناعي
لماذا يهم
O Senegal é considerado um dos países mais estáveis da África, sem nunca ter sofrido um golpe de Estado. A região do Sahel responde por mais de metade de todas as mortes por terrorismo no mundo em 2025, segundo o Índice de Terrorismo Global 2026, com concentração em Mali, Burkina Faso e Níger.
Com uma população de quase 4 milhões de pessoas na região metropolitana, a capital do Senegal, Dacar, é o ponto do continente africano mais próximo das Américas — apenas 2,9 mil quilômetros separam Dacar e o Brasil. A cidade é sede do 10º Fórum Internacional de Dacar sobre Paz e Segurança na África, evento de dois dias que terminou nesta terça-feira (21). O encontro reúne chefes de Estado e representantes de 38 países – sendo 18 dos 54 africanos – além de integrantes de dez organismos internacionais, como Organização das Nações Unidas (ONU) e União Europeia (EU). O Brasil está representado pela embaixadora no Senegal, Daniella Xavier.
Na cerimônia de abertura, o presidente senegalês, Bassirou Diomaye Faye, classificou Dacar como uma capital do diálogo estratégico africano e internacional. “Um espaço de reflexão e troca sobre caminhos para desenvolver soluções endógenas [internas] para os desafios de segurança do continente”, discursou.
Além de diagnosticar desafios, debater temas e propor soluções para o continente, o evento é uma forma de reforçar o protagonismo do Senegal na região. O país se destaca por ser considerado um dos mais estáveis da África. Mais que a liderança regional, o país de quase 19 milhões de habitantes busca estender a influência internacional em parceria com outras regiões do mundo, notadamente o chamado Sul Global, do qual o Brasil também busca ser expoente, conforme avaliam profundos conhecedores das relações internacionais entrevistados pela Agência Brasil.
Histórico de paz e estabilidade
O diplomata Leonardo Santos Simão, chefe do Escritório da ONU para a África Ocidental e Sahel, destaca que o Senegal tem uma história de desenvolvimento da paz e estabilidade, sem nunca ter sofrido um golpe de Estado. O moçambicano lembra que a África enfrenta momentos “conturbados” por causa de conflitos internos, regionais, terrorismo e crime organizado.
A região do Sahel, faixa continental de costa a costa que marca a transição entre o deserto do Saara e as savanas ao Sul, é apontada como epicentro do terrorismo internacional, sofrendo ameaças de grupos jihadistas (extremistas islâmicos), como Al-Qaeda e Estado Islâmico. A edição 2026 do Índice de Terrorismo Global aponta que a região responde por mais da metade de todas as mortes por terrorismo no mundo em 2025, concentradas em três países: Mali, Burkina Faso e Niger. As demais nações da região são Senegal, Gâmbia, Mauritânia, Guiné, Chade, Camarões e Nigéria.
“Senegal, através deste diálogo regular, oferece justamente esse espaço de troca de ideias, de troca de opiniões sobre como enfrentar, na prática, esses desafios do nosso tempo”, disse o diplomata, destacando que o fórum recebe representantes de países de fora da África.
Sul Global
O representante da ONU enfatizou que o Senegal faz parte de uma aglutinação internacional defendida pelo Brasil, o Sul Global – grupo de nações em desenvolvimento que compartilham problemas sociais. Simão assinala que o Sul Global serve como instância para uma espécie de diálogo interno do Sul, de modo a identificar quais são os desafios comuns; e também na interlocução entre o Sul Global e o Norte Global (países ricos).
“Este Sul está cada vez mais unido”, disse. “Senegal é parte desse esforço também. Está no mesmo diapasão que o Brasil e outros países do Sul no trazer desta voz do Sul Global para que sejam encontradas soluções para os problemas da pobreza e da exclusão”, sustentou.
Leonardo Simão aponta ainda que a soberania dos países africanos “é um imperativo cada vez maior”. Para ele, os países do Norte têm que entender que “as relações do passado já não são aceitas, precisam ser revistas”. Entre as delegações estrangeiras no Fórum Internacional de Dacar estão integrantes de governos europeus que possuem passado de política colonial, como Alemanha, Espanha, Portugal e a França – que colonizou Senegal até 1960.
Soft power
O professor moçambicano Carlos Lucas Mamboza, especialista em Estudos Estratégicos, Segurança e Defesa, considera que a realização do fórum é um “instrumento claro” de soft power. No jargão do mundo diplomático, soft power é a habilidade de influenciar relações internacionais por meio de atração e persuasão, em vez de coerção e uso de força militar.
“Procura projetar a imagem de um Estado estável, com capacidade institucional, capacidade de mediação dos conflitos na zona do Sahel, mas também na África como um todo”, explica diretamente de Maputo, capital de Moçambique.
O tema do fórum deste ano é “África enfrenta os desafios da estabilidade, integração e soberania: Quais soluções sustentáveis?”. Para Mamboza, também professor de África na Relações Internacionais na Universidade Federal Fluminense (UFF), a escolha do assunto evidencia um grande dilema que os Estados africanos têm sofrido. “É a necessidade de equilibrar uma estabilidade interna, os processos de integração regional e a preservação da soberania em um cenário internacional marcado por uma intensa competição entre as grandes potências, nomeadamente China, a Rússia e os Estados Unidos”.
O professor ressaltar que o encontro apresenta agenda mais ampla, trazendo questões relacionadas a mudanças climáticas, pandemias, criminalidade transnacional, cibersegurança e assuntos tecnológicos. “Indica um esforço do continente em se posicionar de forma autônoma na definição de suas próprias prioridades estratégicas”, completa.
América do Sul
Carlos Lucas Mamboza destaca que Senegal também apresenta uma fase diplomática ligada à América do Sul e ao Brasil. O país é um dos integrantes da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas), aliança com mais de 20 países, a maioria africanos, voltada para a manutenção da parte Sul do Oceano Atlântico livre de guerras e de disputas geopolíticas. Há menos de duas semanas, o Brasil assumiu a liderança do grupo, em um evento no Rio de Janeiro.
“Senegal emerge como um elo importante entre a África Ocidental e o espaço estratégico do Atlântico Sul, conectando-se diretamente com os interesses do Brasil”. Nas palavras do professor, é uma cooperação Sul-Sul.
Ao comentar interesses conjuntos dos dois países, Mamboza citando a defesa de reformas na governança global. Um exemplo é no Conselho de Segurança (CS) da ONU, pleito antigo do Brasil e de africanos. Atualmente, apenas cinco países têm presença permanente no conselho e poder de veto (Rússia, Estados Unidos, China, Reiuno Unido e França), nenhum deles da América do Sul ou da África. Entre as funções do CS estão a imposição de sanções internacionais e permitir intervenção militar.
Estados Unidos
O protagonismo buscado por Senegal foi reconhecido pela delegação dos Estados Unidos que seguiu para Dacar, conforme o subsecretário adjunto do Departamento de Estado (equivalente ao Ministério das Relações Exteriores), Richard Michaels. “A liderança do Senegal em questões de segurança regional demonstra o impacto transformador que os países africanos podem alcançar quando traçam seu próprio caminho rumo ao sucesso”, afirmou.
“Saudamos uma nova fase de liderança africana, com atores nacionais e regionais à frente do enfrentamento dos desafios do continente — sejam eles econômicos, de segurança ou políticos”, completa o diplomata dos Estados Unidos.
Richard Michaels afirmou ainda que os Estados Unidos estão “redefinindo de forma essencial” a relação com parceiros africanos, “agora baseada em comércio mutuamente benéfico, em vez de ajuda e dependência”.
Minerais críticos
O representante do governo americano deixou claro que o país tem interesse em participar da cadeia de exploração dos chamados minerais críticos, recursos essenciais para tecnologias modernas, defesa e transição energética. “África é o epicentro da corrida global por minerais críticos”, definiu.
ما الذي يجب مراقبته
توقعات الذكاء الاصطناعي — احتمالات وليست حقائق
O Senegal deve continuar consolidando seu papel de mediador em conflitos africanos nos próximos anos
مرجح · خلال سنوات
Brasil e Senegal devem ampliar cooperação na Zopacas e em fóruns do Sul Global
مرجح · خلال أشهر
Pressão por reforma do Conselho de Segurança da ONU deve aumentar entre países africanos e sul-americanos
محتمل · خلال سنوات
أسئلة مفتوحة
- Quais serão as soluções concretas propostas pelo fórum para combater o terrorismo no Sahel?
- Como será a cooperação entre Senegal e Brasil na Zopacas nos próximos anos?
- Os países do Norte aceitarão rever as relações coloniais conforme solicitado por representantes africanos?





