
Avalanche de lama no Nepal e desabamento na Suíça mostram como o derretimento do permafrost devido ao aquecimento global desencadeia colapsos montanhosos; tecnologias como fibra óptica e ultrassom são testadas para monitoramento precoce, enquanto especialistas alertam para riscos crescentes e necessidade de investimento em prevenção.
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O derretimento do permafrost, camada de solo e rocha permanentemente congelada que atua como cola natural nas montanhas, está acelerando devido ao aquecimento global, provocando instabilidade em estruturas rochosas e geleiras.
A destruição provocada por uma avalanche de lama no Nepal, que deixou milhares de desaparecidos no Himalaia, e o desabamento que engoliu o vilarejo de Blatten, nos Alpes Suíços, escancaram os impactos do aquecimento global nas regiões cobertas por gelo.
Em ambas as tragédias, o colapso de estruturas rochosas e o derretimento do permafrost liberaram volumes colossais de água e detritos em alta velocidade.
Em Blatten, no sul da Suíça, a montanha veio abaixo a 200 km/h no ano passado. O povoado foi soterrado em poucos segundos, destruindo o histórico hotel local e casas da região. Como os sistemas de monitoramento detectaram a instabilidade a tempo, o vilarejo havia sido evacuado e não houve mortos no local — apenas uma morte foi registrada em uma comunidade vizinha.
"Prédios a gente reconstrói. O difícil é ver um vilarejo inteiro desaparecer", lamentou o morador Lukas.
O papel do permafrost
A explicação para desabamentos dessa dimensão está no subsolo das cordilheiras. O permafrost é uma camada de solo e rocha permanentemente congelada que funciona como uma cola natural para manter as estruturas da montanha unidas.
Com o aumento da temperatura do planeta, essa camada congela com menor intensidade ou derrete. Sem a sustentação do gelo interno, blocos gigantescos de rocha cede.
"O permafrost é o gelo que fica no subsolo. Ele funciona como uma cola, juntando a montanha e as pedras. Com o aquecimento do planeta, essa cola derreteu e a estrutura veio abaixo", explica o glaciologista Matthias Huss.
Derretimento do permafrost acelera colapso de montanhas e acende alerta global — Foto: Reprodução/TV Globo
A dimensão do desastre recente no Nepal, segundo Huss, foi de 10 a 20 vezes maior do que a registrada na Suíça. "Nas duas tragédias, o colapso arrastou a geleira e liberou um volume colossal de água. Uma força capaz de percorrer grandes distâncias, numa velocidade avassaladora", destacou o especialista.
Dados mostram que, desde 1950, oito dos dez piores anos de derretimento de gelo no mundo ocorreram na última década. O recuo das geleiras, do Paquistão aos Alpes, tem inclusive feito emergir corpos de pessoas desaparecidas há décadas.
"Estamos numa fase de transição. De montanhas cobertas de gelo para montanhas totalmente sem gelo. Essas mudanças, muitas vezes, terminam em grandes catástrofes", completou Huss.
Ultrassom e fibra óptica no gelo
Para tentar prever deslizamentos antes que ocorram, pesquisadores e governos buscam alternativas tecnológicas. Na Itália, mantas térmicas têm sido estendidas sobre o gelo para tentar desacelerar o derretimento durante as ondas de calor no verão europeu.
Na Suíça, cientistas da Universidade ETH de Zurique desenvolveram uma técnica com cabos de fibra óptica estendidos sobre a neve para captação de ruídos internos da montanha.
"Parece mágica, mas é física. Funciona exatamente como um exame de ultrassom. Nós escutamos os estalos das fendas se abrindo dentro da geleira", disse Thomas Hudson, pesquisador responsável pelo projeto.
O mapeamento revelou que o fraturamento interno do gelo é significativamente maior do que as rachaduras visíveis na superfície. Em uma única geleira analisada nos Alpes, mais de 8% da área monitorada já apresentava fendas ocultas.
Quando a água do degelo superficial penetra nessas aberturas profundas, ocorre o fenômeno da hidrofratura, em que a pressão do líquido força o alargamento das fendas e acelera novos colapsos.
Segundo a equipe de Zurique, cada caixa de leitura a laser do sistema custa cerca de US$ 100 mil (mais de R$ 500 mil). Um único cabo de fibra óptica consegue monitorar uma extensão de até 50 quilômetros, cobrindo rodovias, ferrovias e vilarejos.
"No futuro, teremos sistemas de monitoramento em tempo real. A fibra óptica vai avisar minutos antes da montanha vir abaixo", projetou Hudson.
Investimento em prevenção
Enchente no Nepal. — Foto: Reprodução/TV Globo
Alertas emitidos com minutos de antecedência representam a diferença entre salvar vidas ou registrar tragédias humanas, como demonstram episódios históricos no Peru (1970), na Índia (2021) e agora no Nepal.
O chefe do Escritório da ONU para Redução do Risco de Desastres, Kamal Kishore, reforçou que as mudanças nas montanhas afetam regiões situadas a dezenas de quilômetros de distância.
"O que acontece nas montanhas não fica nas montanhas. O passado não é mais um guia confiável para o futuro, que será ainda mais arriscado", afirmou Kishore, destacando que cada dólar investido em prevenção de desastres evita até vinte dólares em custos de reconstrução.
Cientistas ressaltam que, embora novas tecnologias e dados via satélite ampliem a capacidade de identificar áreas de risco, o planeta precisará se adaptar a um cenário de transformações inevitáveis.
"A ciência está aprendendo com essas tragédias. Novas tecnologias devem ajudar a identificar riscos com mais antecedência. Mas prever tudo ainda é impossível", concluiu Matthias Huss.
AI outlook — possibilities, not facts
Sistemas de monitoramento com fibra óptica serão implantados em mais geleiras dos Alpes e do Himalaia nos próximos anos.
Likely · Within years
O investimento em prevenção de desastres em regiões montanhosas aumentará globalmente devido ao custo-benefício destacado pela ONU.
Likely · Within years

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