
Especialista explica como umidade, El Niño e arborização influenciam o índice de calor na capital amazonense.
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Manaus apresenta clima quente e úmido o ano inteiro, com umidade relativa do ar frequentemente acima de 80%.
Quem vive em Manaus sabe que a temperatura que aparece no termômetro nem sempre explica o calor sentido nas ruas, principalmente em áreas mais urbanizadas durante o verão amazônico. A sensação de uma temperatura diferente da que é divulgada por meteorologistas pode ser atribuída à chamada sensação térmica. Mas afinal, qual é a diferença entre temperatura e sensação térmica na prática?
O g1 conversou com o meteorologista Leonardo Vergasta, que explicou que o termo mais utilizado para a região amazônica, onde o clima é quente e úmido o ano inteiro, e a umidade relativa do ar ultrapassa 80% com frequência, é "índice de calor".
"A temperatura do ar é aquilo que a gente mede no termômetro: é um valor objetivo que mede a energia do ar em um determinado momento. Já a sensação térmica, ou o que aqui na região o mais correto tecnicamente, a gente prefere chamar de índice de calor, é diferente. É basicamente como o nosso corpo sente aquela temperatura. Não é medido por um termômetro comum. É calculado levando em conta a temperatura do ar junto com a umidade relativa do ar", explica.
Vergasta explica que o índice de calor é um dado que representa melhor o estresse térmico que a população sente em dias de temperatura elevada. De acordo com o meteorologista, em regiões tropicais úmidas como a Amazônia, a diferença entre a temperatura do ar e o índice de calor pode chegar a até 15°C.
O termômetro não conta a história inteira
Uma mesma temperatura pode parecer muito diferente dependendo do lugar onde a observação é feita. Fatores como umidade, vento, radiação solar, sombra e características da superfície urbana afetam a percepção do clima.
De acordo com Vergasta, isso acontece porque o corpo humano funciona como um sistema de troca de calor com o ambiente ao redor, e a capacidade deste sistema de liberar o calor para o ar que nos cerca é o que causa a sensação de ambiente quente ou frio.
"Quando está quente, a gente sua. Esse suor que sai da pele evapora, e essa evaporação é o que realmente nos resfria. É como quando você molha o braço e o vento passa: aquela evaporação da água é que tira o calor. Agora, quando a umidade do ar é muito alta, o ar já está cheio de água, e aí aquele suor não consegue evaporar direito. Fica ali na pele, não evapora, e o corpo não consegue se resfriar. Resultado: você sente muito mais calor", explicou.
Neste cenário, o fator mais importante na diferença da percepção de calor é a umidade do ar. Em locais de clima úmido, como o Amazonas, a umidade permanece alta mesmo no período de seca. Essas condições, somadas a eventos climáticos como o El Niño, fazem com que a sensação de calor seja ainda maior do que em outras épocas do ano.
"Aqui em Manaus, durante o período que a gente chama de seco, que vai de maio até outubro, a umidade cai um pouco, mas não drasticamente. Quando combinamos isso com um evento como o El Niño, que reduz as nuvens e aumenta a radiação solar chegando ao solo, o resultado é um índice de calor extremamente alto. Por isso é que neste ano, com o El Niño que foi estabelecido em junho, a gente está vendo esse impacto muito forte no clima da região", pontuou o meteorologista
A influência da arborização
Outro fator que influencia o índice de calor é a arborização. Por exemplo, uma pessoa caminhando por um parque pode ter uma sensação mais confortável da temperatura do que uma pessoa caminhando em uma rua asfaltada que registra a mesma temperatura no termômetro.
Além da sombra produzida pelas árvores servir como alívio térmico em dias de sol muito intenso, o fenômeno da evapotranspiração das plantas também auxilia na diminuição da sensação de calor em lugares com maior vegetação, em um efeito que Vergasta descreveu como "uma espécie ar-condicionado natural":
"Quando você está embaixo de uma árvore, aquela radiação solar que viria diretamente do céu é bloqueada pelas folhas, então a gente não recebe todo aquele calor na pele. Segundo, as árvores transpiram, ou seja, elas liberam água através das folhas, e essa água evapora. Essa evaporação consome calor do ar ao redor, e isso resfria o ambiente local. Além disso, árvores reduzem um pouco a velocidade do vento, e quando tem muita transpiração das plantas liberando água, a umidade do ar ao redor muda", explicou.
O especialista apontou também que a temperatura do ar em áreas arborizadas pode ser 1°C a 5°C menor em comparação com áreas sem árvores.
Entretanto, este efeito precisa de uma cobertura vegetal contínua e densa para que seja percebido em um bairro inteiro, ou uma cidade. Uma única árvore, mesmo grande e madura, pode auxiliar o clima imediatamente ao redor por conta da sombra projetada, mas não é o suficiente para impactar uma região maior que alguns metros.
"A razão é simples: o efeito de uma árvore isolada é muito localizado, funciona em um raio de cerca de 10 a 20 metros ao redor dela. Para resfriar um bairro inteiro, você precisa de múltiplas árvores formando uma estrutura contínua, criando uma rede de sombra e evapotranspiração. Pesquisas mostram que ruas com uma ou duas árvores têm um efeito térmico bem menor comparado com ruas que têm um dossel de árvores contínuo cobrindo toda a via".
De acordo com Vergasta, o fenômeno climático El Niño, estabelecido em junho de 2026, impulsionou temperaturas médias acima do normal para setembro e outubro, e a incidência de anomalias do tipo faz com que a vegetação urbana seja extremamente importante.
A Floresta Amazônica é um regulador climático em escala regional, mas em Manaus, uma das maiores cidades do bioma, a arborização não é o suficiente para cumprir o papel de redução do calor em grande parte da cidade. Em grandes cidades, a alta urbanização facilita a formação de ilhas de calor, quando o asfalto e concreto absorvem o calor do sol e aumentam a sensação de calor no ambiente.
"A maioria das pessoas de renda mais baixa, que mora justamente em áreas da cidade com menos arborização, depende completamente do sombreamento natural para sobreviver bem durante esses períodos de calor intenso", diz Vergasta.
"Além disso, ondas de calor extremo e fenômeno de ilhas de calor urbano aumentam a mortalidade, principalmente entre idosos, crianças pequenas e pessoas com problemas no coração ou pulmão. A arborização urbana reduz essa carga de estresse térmico", completa.
Com o índice de calor em certos pontos da cidade alcançando níveis acima de 45°C, o estresse térmico se torna perigoso principalmente para populações vulneráveis, trabalhadores manuais ou pessoas que praticam qualquer tipo de atividade física nos horários de maior incidência de calor:
"Para a saúde pública e para o bem-estar geral da população de Manaus, especialmente dos mais vulneráveis, a arborização não é um luxo: é uma questão de necessidade mesmo", finalizou.

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