
Especialistas explicam como a poluição da Grande São Paulo afeta o ecossistema e a população em Salto (SP)
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O Rio Tietê sofre com o acúmulo de espuma tóxica devido ao esgoto doméstico e industrial não tratado vindo da Grande São Paulo. A estiagem e a agitação das águas em quedas d'água agravam o fenômeno.
Um trecho do Rio Tietê em Salto (SP) sofre há anos com um problema crônico: grandes volumes de espuma tóxica que surgem na superfície do rio e evidenciam a degradação da qualidade da água.
Somente neste ano, o g1 noticiou diversas ocorrências de espuma no Rio Tietê. Em uma delas, pela primeira vez, o fenômeno foi registrado em um trecho do Rio Jundiaí, que deságua no Tietê, também em Salto. O resíduo também chegou a aparecer em uma parte do Rio Tietê em Itu (SP).
Ao g1, o engenheiro ambiental sanitarista Lucas Gomes, de Salto, e o biólogo Hélio Pereira, de Sorocaba (SP), explicaram os impactos do fenômeno na natureza e quais medidas poderiam ser adotadas para combatê-lo. Para começar, é importante entender que o problema resulta da combinação de três fatores principais:
Poluição: o esgoto doméstico e industrial não tratado, que desce da Grande São Paulo, é rico em fósforo e resíduos de detergentes;
Falta de chuvas: a estiagem recente na região diminui a vazão do rio, o que aumenta a concentração dos poluentes na água;
Quedas d'água: a agitação da água nas pedras funciona como um "liquidificador", batendo os produtos químicos e gerando a espuma que cobre a paisagem.
Impactos ambientais
Flora aquática e terrestre
A começar pela flora local, o biólogo explica que a espuma compromete a vegetação das margens do rio e o ecossistema aquático. Os detergentes, a matéria orgânica e outras substâncias presentes na água podem alterar as condições físico-químicas dos trechos.
“A espuma impacta os processos fisiológicos das plantas e compromete o equilíbrio dos ecossistemas. Além disso, a degradação da qualidade da água pode reduzir a capacidade de regeneração da vegetação ribeirinha e favorecer processos de degradação ambiental”, pontua.
Fauna aquática
Já na fauna aquática, o problema é ainda maior. Segundo Hélio, a espuma é apenas a manifestação visual de uma água que recebe uma carga elevada de poluentes. Ao afetarem as condições físico-químicas da água, os contaminantes contribuem para a redução do oxigênio dissolvido e impactam diretamente os animais.
“Além disso, ela altera as condições necessárias à sobrevivência de peixes, invertebrados e outros organismos aquáticos. A alteração da qualidade da água também pode provocar desequilíbrios nas cadeias alimentares e reduzir a biodiversidade”, diz.
Ele ainda pontua que a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) mantém, em seu monitoramento de águas interiores, registros de oxigênio dissolvido, sedimentos e peixes mortos.
Fauna terrestre
Os animais terrestres também sofrem com a concentração de poluição no rio. De acordo com o biólogo, mamíferos, aves, répteis, anfíbios e outros animais podem entrar em contato com a água contaminada ao beber, se alimentar ou utilizar as margens como abrigo.
“Eles ficam expostos a substâncias químicas e a outros poluentes presentes no ambiente. Além do risco de intoxicação direta, a degradação do rio pode reduzir a disponibilidade de água e alimento e comprometer organismos que integram a base das cadeias alimentares, provocando efeitos indiretos sobre as populações de animais terrestres”, explica.
População
Por fim, a população sente os impactos ambientais, sanitários, econômicos e também sociais. Segundo o biólogo, o contato direto com a água espumosa deve ser evitado, especialmente para atividades de lazer, pesca ou outras formas de exposição.
“Além do possível risco associado aos contaminantes, a degradação do Tietê compromete a paisagem, o turismo, a qualidade de vida das comunidades ribeirinhas e a relação da população com o rio”, diz.
Soluções
Para reduzir a espuma, o engenheiro ambiental explica que algumas medidas podem ser adotadas de forma pontual. Entre elas estão a instalação de barreiras de contenção e skimmers de superfície nas proximidades da barragem de Salto, onde a turbulência da água faz a espuma aflorar.
"Isso não resolve a causa, mas reduz o impacto visual e o risco de contato da população. Também podem ser instalados dispersores mecânicos fixos para quebrar a espuma antes que ela se acumule em grandes volumes", explica.
No entanto, ele pontua que as barreiras físicas podem ajudar a reduzir a espuma, mas atuam apenas no local onde o problema aparece e não eliminam a fonte da poluição. "Para melhorar a qualidade da água de forma definitiva, é necessário atuar na origem, porque o Tietê é um corpo hídrico contínuo: o que é lançado lá em cima chega lá embaixo", diz.
"Isso exige gestão integrada de bacia hidrográfica, coordenada entre os municípios da Grande São Paulo, os do interior, como Salto, e os órgãos estaduais. Cada um agindo isoladamente no seu território não resolve o problema regional", continua.
"Mas a medida de engenharia que realmente ataca a causa é o investimento em tratamento de esgoto na Região Metropolitana de São Paulo", reafirma.
Custo das medidas
De acordo com Lucas, a escala financeira necessária para enfrentar o problema já foi dimensionada publicamente: o governo do estado prometeu investir R$ 5,6 bilhões na rede de tratamento de água até 2026. Isso porque, atualmente, na bacia do Alto Tietê, que atende São Paulo, pouco mais da metade do esgoto é tratado, explica o engenheiro.
Responsabilidade compartilhada
No fim, a solução do fenômeno depende da atuação conjunta de diferentes setores. De acordo com o engenheiro, os municípios da Grande São Paulo devem ampliar a coleta e o tratamento de esgoto, enquanto a Sabesp e as concessionárias de saneamento são responsáveis pela operação da infraestrutura.
Comitê
Em nota, o CBH-SMT informou que as perguntas foram respondidas pela SOS Mata Atlântica, em nome da entidade. Malu Ribeiro, representante da organização, explicou que o perfil da poluição do Rio Tietê mudou ao longo das últimas décadas. Atualmente, os efluentes domésticos continuam sendo a principal fonte de poluição.
Semil
Em nota, a Semil informou que o Estado mantém ações de limpeza, fiscalização e monitoramento do Rio Tietê. Segundo a Semil, a carga de poluição no Tietê caiu 21% nos últimos dois anos, o equivalente a uma redução média de 46 toneladas por dia.
Prefeitura de Salto
Em nota, a Prefeitura de Salto informou que a espuma observada no Rio Tietê é resultado da carga de poluição lançada na Região Metropolitana de São Paulo.
AI outlook — possibilities, not facts
Universalização da coleta e tratamento de esgoto até 2029.
Possible · Within years

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