Trabalhadores de aplicativos na Argentina recorrem a empréstimos de fintechs com juros altíssimos para recuperar motocicletas apreendidas
Quick Look
Na Argentina, entregadores de aplicativos que têm suas motocicletas apreendidas pelas autoridades de trânsito frequentemente precisam recorrer a empréstimos de fintechs com juros de até 170% ao ano para pagar multas e taxas de recuperação, alimentando um ciclo de endividamento ligado à reforma econômica do presidente Javier Milei e ao aumento do custo de vida.
AI-generated summary
Why It Matters
A Argentina enfrenta alta inflação, recessões repetidas e crises de dívida soberana, que historicamente desestimularam o crédito. Com a desaceleração da inflação e melhora da estabilidade sob as reformas de Javier Milei, bancos e fintechs aumentaram os empréstimos, enquanto medidas de austeridade reduziram subsídios e apertaram orçamentos familiares, aumentando a demanda por crédito.
Quando as autoridades de trânsito apreendem a motocicleta de um entregador em Buenos Aires, voltar ao trabalho pode depender da contratação de empréstimos digitais onerosos, alimentando um ciclo de endividamento que está cada vez mais vinculando os trabalhadores autônomos da Argentina aos aplicativos dos quais dependem para obter renda.
Albert Quintero, um entregador de 41 anos, ganha em média 70 mil pesos (R$ 234,7) por dia entregando refeições para viagem. Mas recuperar uma motocicleta apreendida pode custar cerca de 140 mil pesos (R$ 459) em multas e taxas, uma conta que, segundo ele, muitos trabalhadores não conseguem arcar sem recorrer a empréstimos.
Cada vez mais trabalhadores de aplicativos estão recorrendo a empréstimos de fintechs, incluindo crédito oferecido pelas próprias plataformas de entrega para as quais trabalham, apesar das taxas de juros que frequentemente chegam a três dígitos.
Aplicativos como o PedidosYa oferecem empréstimos aos entregadores a uma taxa anual de 131%, enquanto a carteira digital Personal Pay cobra cerca de 170%.
"Há muitos que não têm dinheiro", disse Quintero, e por isso acabam se endividando.
À medida que as famílias na Argentina enfrentam o aumento do custo de vida e preocupações com o emprego, os aplicativos de fintechs estão se tornando uma importante fonte de crédito. Eles também oferecem, cada vez mais, uma visão de como os trabalhadores e as famílias estão lidando com a reforma econômica do presidente Javier Milei, que inclui medidas de austeridade que têm afetado as famílias argentinas já sob pressão financeira.
O setor de empréstimos de fintechs do país cresceu 20 vezes, chegando a 10 milhões de empréstimos individuais, em comparação com 500 mil há seis ou sete anos, segundo Mariano Biocca, diretor executivo da Câmara Argentina de Fintechs, um grupo do setor.
Esse crescimento ocorre à medida que as reformas de Milei começam a remodelar o sistema financeiro argentino.
Durante anos, a inflação galopante, as recessões repetidas e as crises da dívida soberana desestimularam a concessão de empréstimos. À medida que a inflação desacelerou e a estabilidade econômica melhorou, bancos e plataformas digitais passaram a conceder mais empréstimos, enquanto medidas de austeridade do governo, como cortes nos subsídios, apertaram os orçamentos das famílias, aumentando a demanda por crédito.
DIFICULDADES PARA PAGAR
Quase seis milhões de pessoas estão com atrasos de mais de 90 dias nos pagamentos, o que representa quase um terço de todos os tomadores de empréstimo, segundo estimativas compiladas pela Câmara de Fintechs. A proporção de empréstimos inadimplentes entre as famílias subiu para 12,8% em junho, o nível mais alto desde o início dos registros em 2010, de acordo com dados do Banco Central da Argentina, e um aumento em relação aos 2,8% registrados quando Milei assumiu o cargo no final de 2023.
Analistas afirmam que a mudança vai além da economia. Os tomadores de empréstimo, que se acostumaram com a inflação elevada corroendo o valor real de suas dívidas, agora enfrentam taxas de juros reais acentuadamente positivas —muitas vezes na casa dos três dígitos—, o que torna o pagamento dos empréstimos mais caro. Um relatório da consultoria Analytica constatou que os jovens foram os mais afetados pela inadimplência.
"Eles conseguem dinheiro fácil por meio de carteiras digitais, mas não percebem os juros que estão pagando", disse Enrique Tobani, que participou de um protesto em agosto em frente ao Ministério da Economia, em Buenos Aires, exigindo o alívio da dívida.
"Cada vizinho, membro da família, trabalhador com quem você conversa, todos estão passando pela mesma situação", disse Tobani.
PEDIDOS DE ALÍVIO DA DÍVIDA
O governo de Milei tem resistido, até o momento, aos apelos de sindicatos, consumidores e grupos de defesa por alívio da dívida com apoio do Estado e, em vez disso, tem caracterizado o aumento da dívida das famílias como uma questão entre partes privadas. Autoridades descreveram os empréstimos inadimplentes como uma consequência temporária dos esforços para expandir o mercado de crédito privado da Argentina.
Com as preocupações com o emprego na Argentina agora superando a inflação nas pesquisas de opinião pública, analistas afirmam que o endividamento pessoal pode se tornar um problema político para Milei antes das eleições de 2027.
"Uma conta externa mais forte não lhe trará sucesso na campanha de 2027 se a dívida das famílias, o consumo fraco e o emprego precário continuarem definindo o cotidiano", afirmou Mariano Machado, da consultoria de risco Verisk Maplecroft.
Embora a inflação tenha diminuído, muitos afirmam que a renda não acompanhou o custo de vida, forçando as famílias a dependerem cada vez mais do crédito para cobrir as despesas diárias.
As empresas de fintechs têm concedido crédito àqueles que não têm renda estável ou emprego formal, segundo Biocca.
"Eles exigem requisitos muito rigorosos", disse Marcelo De Mattei, um entregador de 44 anos, referindo-se aos bancos tradicionais. Ele trabalha como entregador para complementar sua renda, ganhando cerca de 19,6 mil pesos (R$ 66,44) por dia.
Grupos bancários e empresas de fintechs estão pedindo a redução dos impostos sobre empréstimos para diminuir os custos de financiamento.
ABAPPRA (Associação de Bancos Públicos e Privados da Argentina) propôs, em 28 de agosto, alterações nas regras do Banco Central que dariam aos credores maior flexibilidade para classificar os tomadores em atraso e contabilizar empréstimos vencidos.
No protesto em Buenos Aires, Oriana Fernández, do grupo de defesa "Devedores Organizados", disse que os empréstimos estão se tornando cada vez mais uma forma de sobreviver.
"Vemos que as pessoas estão se endividando para cobrir suas necessidades básicas e despesas diárias", disse ela.
What to Watch
AI outlook — possibilities, not facts
O endividamento familiar se tornará um problema político significativo para Javier Milei antes das eleições de 2027.
Likely · Within months
As propostas da ABAPPRA para alterar as regras do Banco Central serão discutidas e possivelmente aprovadas para reduzir custos de financiamento.
Possible · Within months
Open Questions
- Qual será o impacto político do endividamento familiar nas eleições de 2027?
- O governo de Milei mudará sua posição sobre alívio da dívida com apoio do Estado?
- As propostas da ABAPPRA para alterar as regras do Banco Central serão aprovadas?
- Como os trabalhadores informais serão afetados pelo aumento da inadimplência?







