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A rotina de um cubano em meio à pior crise energética das últimas décadas
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A rotina de um cubano em meio à pior crise energética das últimas décadas

Relato de Gustavo, um jovem de 25 anos em Havana, revela o impacto dos apagões, da falta de transporte e da escassez de recursos em sua vida cotidiana.

Quick Look

  • Gustavo, um jovem de 25 anos em Havana, enfrenta os efeitos da grave crise energética em Cuba.
  • Com apagões de 16 horas diárias, falta de transporte público e escassez de água, ele relata como a rotina e a saúde mental da população foram severamente afetadas.

AI-generated summary

Why It Matters

Cuba enfrenta sua pior crise energética em décadas, marcada por falhas recorrentes no Sistema Elétrico Nacional e escassez crônica de combustíveis.

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Gustavo costuma passar os longos apagões de Cuba lendo ou escrevendo no computador, na varanda de casa.

Gustavo vai à academia todas as manhãs. Ele trabalha em uma galeria de arte na capital de Cuba, Havana. E, nos fins de semana, visita exposições e escreve sobre elas para uma revista. Sua vida poderia ser a vida típica de um profissional de 25 anos de idade, não fosse pela crise energética enfrentada por Cuba, a pior das últimas décadas. Ela provocou um efeito dominó que afeta quase todas as suas atividades.

A questão não são apenas os apagões, que se estendem por cerca de 16 horas por dia. Há também a falta de transporte público, que leva Gustavo a planejar cuidadosamente suas saídas de casa. Do contrário, ele se arriscaria a precisar pagar por um táxi que poderia custar um terço do seu salário mensal. Isso sem falar que, frequentemente, sua casa fica semanas inteiras sem água e que ele passa muitas noites junto a uma lanterna na sacada de casa, para tentar evitar o calor. Gustavo afirma que a falta de energia "afeta até o que você menos imagina".

O Sistema Elétrico Nacional de Cuba, operado pela empresa estatal União Elétrica, entrou em colapso sete vezes desde o início deste ano. A infraestrutura energética do país é antiga, tecnologicamente obsoleta e não houve investimentos suficientes para sua manutenção e modernização. Atualmente, as centrais termelétricas cubanas produzem apenas uma fração da sua capacidade. Uma análise do Grupo de Estudos de Cuba concluiu que o mau estado da rede elétrica cubana se deve a "recursos internos insuficientes com prioridades mal definidas, agravados por uma fraca capacidade de implementação".

Além disso, a rede elétrica depende fundamentalmente de combustíveis fósseis, que Cuba atualmente não tem à disposição. A falta de petróleo se agravou seriamente neste ano, devido ao bloqueio energético imposto à ilha pelos Estados Unidos. Em janeiro, o presidente americano, Donald Trump, ameaçou os países que fornecerem petróleo a Cuba com tarifas de importação. E os embarques da Venezuela para a ilha terminaram com a detenção do presidente Nicolás Maduro, no início do ano. O objetivo, segundo altos funcionários americanos, é aumentar as pressões para a "queda" do governo revolucionário cubano.

Paralelamente a todos esses acontecimentos em termos de relações internacionais, pessoas como Gustavo arcam com as consequências na sua vida diária. Tudo isso, agregado a uma longa e profunda crise econômica. A BBC News Mundo conversou por uma semana com Gustavo, para entender algumas das consequências à sua vida e à de milhões de outros cubanos da pior crise energética enfrentada por Cuba nas últimas décadas.

Na terça-feira, Gustavo amanheceu com luz na sua casa. "Tive sorte", escreve ele, enquanto se dirige ao seu trabalho. Gustavo mora na zona leste da capital e trabalha no centro. As duas regiões são separadas pela baía de Havana. Por isso, todos os dias, ele precisa atravessar um túnel submarino, que não pode ser cruzado a pé, nem de bicicleta ou de moto. Só é permitido o tráfego de carro ou transporte público. Mas o sistema de ônibus de Havana praticamente parou de funcionar.

O chamado ciclobus, que percorre o curto trajeto de um lado a outro da baía, é um dos poucos meios de transporte que continuam operando. Ainda assim, "desde o bloqueio energético no início deste ano, também começou a falhar", segundo Gustavo. Quando isso acontece, ele simplesmente não pode ir trabalhar. "Não vou gastar basicamente o meu salário para ir ao trabalho, não faz sentido", explica ele. Quando o ciclobus está funcionando e ele consegue atravessar o túnel, Gustavo precisa caminhar até o que os cubanos chamam de piquera, o local aonde chegam os carros particulares que substituíram os ônibus. Eles vendem lugares individuais e percorrem trajetos específicos.

Mas, em vez de cobrar dois pesos cubanos, como faziam os ônibus públicos, eles cobram cerca de 800 pesos, o que representa 25% do salário mínimo mensal em Cuba. "Às vezes, eles são desconfortáveis, pois viajamos muitas pessoas em um único carro", ele conta. "Os automóveis, muitas vezes, são modificados para caber mais gente." De volta para casa à tarde, para evitar pegar o ciclobus, que demora muito e costuma ficar cheio, Gustavo coge botella, ou seja, ele pede carona. Sua sorte "depende de haver eletricidade no semáforo e da generosidade dos motoristas", segundo ele. Tanto na ida como na volta, Gustavo também precisa fazer longos trajetos a pé embaixo do sol. "Com a crise, cada vez caminho mais", lamenta ele. "Fiz algumas caminhadas que, sinceramente, eu poderia, agora, ser maratonista. Qualquer cubano poderia ser."

Não foram apenas os ônibus de transporte público que deixaram de operar regularmente devido à falta de combustível. O mesmo aconteceu com os caminhões de lixo. "Agora mesmo, a cidade de Havana, e estou certo de que também o resto do país, está totalmente coberta de lixo", ele conta. "Em todas as esquinas, há um lixão. Alguns deles ocupam a rua inteira." Na região onde ele mora, o caminhão de lixo costumava passar uma vez por semana. Mas, agora, "em Havana Velha, ele talvez passe uma vez por mês e, aqui onde moro, não passa nunca", conta Gustavo, rindo. A solução encontrada pelos moradores é queimar o lixo. "Ou você queima o lixo para limpar um pouco ou deixa que o lixo coma você", segundo ele. "Não há mais remédio."

As consequências da crise também chegam até dentro da sua casa. Na quarta-feira, após um longo apagão causado por uma falha que afetou todo o sistema elétrico nacional, Gustavo conta que "a eletricidade voltou, mas não tenho água já há uma semana". Sem eletricidade, os motores que fazem a água chegar às residências deixam de funcionar. Isso sem falar que as tubulações se rompem com frequência, pois estão velhas e em mau estado, segundo Gustavo. "Estamos acostumados com problemas com a água há muito tempo. É algo que nos afeta muito." Frente às frequentes interrupções de fornecimento, Gustavo e sua família aprenderam a se preparar. "O que fazemos é armazenar água", explica ele. "Temos um tanque no teto, outro no pátio e 20 baldes pequenos."

E, é claro, há os apagões, ou alumbrones, como são chamados em Cuba. Eles passaram a ser cada vez mais longos e são irregulares. "Você fica o dia todo sem eletricidade, eles colocam corrente por quatro horas e, depois, você volta às escuras", conta Gustavo. "Às vezes, a eletricidade vem por duas horas, não mais que isso. Não tem pé nem cabeça. Não tem ritmo, não tem lógica, é como tiver que acontecer." Gustavo conta que, quando chega a luz, algumas pessoas se apressam para ligar a máquina de lavar, mesmo que seja de madrugada. Às vezes, os apagões se estendem por tanto tempo que os alimentos refrigerados começam a estragar. "Agora mesmo, em Havana, estamos talvez com 16 horas sem eletricidade", destaca ele. E, durante todo este tempo, ele também fica sem sinal de celular e sem internet.

Na sexta-feira, Gustavo assistiu a uma exposição de arte para poder escrever sobre ela. Ele saiu à noite e precisou voltar para casa em meio à escuridão. "Fiquei com um pouco de medo, pois precisei atravessar regiões perigosas de Havana sem luz", ele conta. "O meu bairro também estava sem eletricidade e já eram 10 horas da noite. Por isso, paguei um pouco mais ao motorista para que me deixasse em frente de casa, por segurança." Ele conta que a ideia de que Cuba é um país excepcionalmente seguro já não corresponde exatamente à realidade. "A criminalidade aumentou muito", destaca ele. "É preciso andar com mais cuidado."

Mesmo com tudo o que precisa enfrentar devido à falta de combustível que vive seu país, Gustavo mantém um certo grau de otimismo. "Tento ajustar meus sonhos e objetivos ao que me for viável", explica ele. "A crise é muito séria, ela dificulta todos os aspectos da vida. Mas não posso me dar por vencido." Desde que se formou em História da Arte, seu objetivo era se inserir no mundo da arte, escrever e ganhar a vida com isso. "Enquanto houver arte e artistas, terei a oportunidade de realizar meu sonho."

Existe também um impacto emocional, segundo Gustavo. Não só para ele, mas para todos à sua volta. "Não importa onde você esteja, nem o que estiver fazendo. Quando acaba a eletricidade, a diversão também acaba." "Esta situação deixa a mim e a todos muito irritados", ele conta. "Há muita frustração, muito estresse e muitas incertezas, pois não sabemos o que irá acontecer, como isso será resolvido." Gustavo afirma que, além da crise do combustível, existe uma crise de saúde mental e de estado de espírito em Cuba. "Esse mito do cubano que ri das próprias misérias acabou. As pessoas estão com os nervos à flor da pele."

Open Questions

  • Qual será o impacto a longo prazo na infraestrutura elétrica?
  • Existem planos governamentais para a modernização da rede?

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This article was originally published by G1.

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