Descentralização fiscal silenciosa: o aumento do gasto de estados e municípios após a pandemia
Quick Look
- O debate fiscal brasileiro foca no governo federal, mas ignora a forte elevação das despesas de estados e municípios desde 2022, conhecida como 'descentralização fiscal silenciosa'.
- O gasto regional saltou de R$ 2 trilhões para R$ 2,7 trilhões em termos reais, respondendo por cerca de 70% do aumento do gasto do governo geral desde 2019.
- Transferências da União para os entes subnacionais subiram de 6,2% para quase 8% do PIB.
AI-generated summary
Why It Matters
O artigo discute o debate fiscal brasileiro centrado no governo federal, mas destaca que uma mudança estrutural no gasto público pós-pandemia é o aumento significativo das despesas de estados e municípios, chamado de 'descentralização fiscal silenciosa'. Ele apresenta dados do PIB mostrando que o gasto primário do governo central está R$ 100 bilhões acima da tendência de 2015-19, enquanto o gasto dos governos regionais saltou de R$ 2 trilhões para R$ 2,7 trilhões em termos reais desde 2022, respondendo por 70% do aumento do gasto do governo geral desde 2019. Também menciona que parte do que o Tesouro Nacional reporta como despesa federal são transferências a entes subnacionais, como complementação ao Fundeb e repasses do SUS, e que o total transferido pela União para os governos regionais passou de 6,2% para quase 8% do PIB desde 2022.
O debate fiscal brasileiro tem girado quase inteiramente em torno do governo federal: metas de primário, arcabouço fiscal, Bolsa Família, isenção do IRPF, dívida bruta. Agenda relevante, mas que esconde uma das principais mudanças estruturais no gasto público após a pandemia: a forte elevação das despesas de estados e municípios, fenômeno que foi denominado de "descentralização fiscal silenciosa" por Manoel Pires, meu colega no FGV Ibre.
Sob a ótica das contas nacionais (isto é, do PIB), em que cada despesa é atribuída à esfera que de fato a executa, o gasto primário do governo central "orçamentário" se acomodou cerca de R$ 100 bilhões acima da extrapolação da tendência de 2015-19 —desvio que corresponde, grosso modo, à expansão do Bolsa Família a partir de 2021. Já o gasto dos governos regionais saltou de cerca de R$ 2 trilhões para R$ 2,7 trilhões, em termos reais, desde 2022. Do aumento do gasto do governo geral (governo federal mais estados e municípios) desde 2019, cerca de 70% ocorreu na esfera regional.
Convém lembrar que uma parte não desprezível do que o Tesouro Nacional reporta como despesa federal é, na verdade, transferência a entes subnacionais: complementação ao Fundeb, repasses do SUS, FCDF, Lei Kandir, parte das emendas parlamentares, entre outros. O total transferido pela União para os governos regionais, considerando repartição de receitas e repasses via despesas primárias, passou de 6,2% do PIB na média de 2006-19 para quase 8% do PIB desde 2022.
Essa descentralização fiscal traz três ordens de problemas.
A primeira é de coordenação com a política monetária. O Banco Central reage ao impulso fiscal agregado, não apenas ao da União: entre 2022 e 2025, o impulso do gasto regional somou cerca de R$ 700 bilhões, quase 70% acima dos R$ 400 bilhões do governo central.
A segunda é de sustentabilidade. Só a União é cobrada a gerar primário compatível com a estabilização da dívida pública. Os governos regionais devem sobretudo ao próprio Tesouro, que renegociou essas dívidas em 1997, 2014, 2016 e, agora, com o Propag (2025). Não há disciplina de mercado, e os freios institucionais se resumem aos tetos de gasto com pessoal da LRF, contornáveis por contabilidade criativa, e aos limites de endividamento (que são condicionados pelo rating do Capag, altamente pró-cíclico). Os ganhos da bonança viram gasto permanente, sem poupança; as perdas, contudo, são socializadas.
A terceira é o efeito sobre a própria capacidade da União de cumprir suas metas de resultado primário. Pela despesa, as transferências aos governos regionais cresceram expressivamente desde 2020. Pela receita, metade da arrecadação de IR e IPI é repartida automaticamente via FPE, FPM e fundos regionais —valendo notar que os percentuais de FPM vêm sendo elevados pelo Congresso frequentemente, como foi o caso em 2021.
A Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) de 2000 foi um marco, mas foi desenhada para outro país e falhou em diversos aspectos. Precisamos aprimorá-la, sobretudo no que toca a uma maior responsabilização pelo equilíbrio fiscal, que precisa alcançar também os governos regionais e os demais Poderes.
O Congresso ampliou Fundeb e FPM e converteu as emendas em uma política de gasto descentralizada de R$ 50 bilhões por ano, sem contrapartida em resultado fiscal. Legislativo e Judiciário, em todas as esferas, seguem decidindo reajustes e penduricalhos como se a restrição orçamentária fosse problema exclusivo do Executivo.
A consolidação fiscal que o Brasil precisa implementar não poderá advir somente do Executivo federal.
What to Watch
AI outlook — possibilities, not facts
O Congresso Nacional continuará a ampliar fundos de participação como FPM e Fundeb sem vincular essas expansões a metas de resultado fiscal.
Likely · Within months
A falta de disciplina de mercado nos governos regionais levará a novos ciclos de endividamento seguido de renegociação com o Tesouro Nacional, semelhante aos acordos de 1997, 2014 e 2016.
Possible · Within years
Open Questions
- Quais são os impactos específicos da descentralização fiscal na inflação e na taxa de juros?
- Como os tetos de gasto com pessoal da LRF estão sendo contornados por contabilidade criativa?
- Quais são os detalhes do Propag (2025) e como ele pretende renegociar as dívidas dos governos regionais com o Tesouro?
- Como o Congresso tem elevado os percentuais do FPM e quais são os efeitos fiscais dessas mudanças?



