
Com apoio familiar e novas diretrizes da OMS, crianças adotam crossfit e dança para enfrentar o sobrepeso, enquanto rede municipal aponta alta nos índices.
Em Ribeirão Preto (SP), onde quase quatro em cada dez adolescentes têm sobrepeso ou obesidade, crianças mudam rotina alimentar e apostam em atividades como crossfit e dança com apoio familiar.
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A OMS lançou diretrizes para o tratamento da obesidade em crianças e adolescentes, recomendando foco em alimentação saudável e atividade física para menores de 10 anos.
Há cerca de dois meses, Rafaela Nogueira, a Rafa, de 10 anos, fez uma aula experimental de crossfit para crianças em uma academia de Ribeirão Preto (SP). Gostou tanto que chamou os colegas de escola para experimentar. Seis amigos da sala dela começaram a treinar, segundo a mãe, Jessica Nogueira, de 37 anos.
“Quando eles fizeram a aula experimental, eles gostaram bastante. Falaram com os pais, os pais autorizaram e eles começaram a fazer”, conta Rafa.
O treino é a parte mais visível de uma mudança que começou em casa. Para ajudar a filha, que ganhava peso desde os 3 anos, a família mudou a alimentação de todos.
Em Ribeirão Preto, quase quatro em cada dez adolescentes de 10 a 19 anos acompanhados pelo Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), do Ministério da Saúde, têm sobrepeso ou obesidade. Em 2026, até setembro, o índice era de 39,3%. Em 2008, de 22,8%.
Na rede municipal, o Núcleo de Obesidade Infantil (Nobin), inaugurado pela prefeitura em dezembro de 2025, trata crianças e adolescentes com o problema. De janeiro a setembro deste ano, o paciente faltou a 161 das 297 consultas agendadas no núcleo.
Em 7 de outubro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou as primeiras diretrizes para o tratamento da obesidade em crianças e adolescentes. Para menores de 10 anos, a entidade recomenda alimentação saudável, atividade física e mudança de comportamento, e não recomenda remédios nem cirurgia bariátrica.
Para o endocrinologista pediátrico Thiago Hirose, especialista pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HC-FMRP/USP), o aumento de casos “é uma tendência geral, não apenas de Ribeirão Preto, mas também de outras localidades”.
“A casa inteira mudou”
Segundo Jessica, Rafa começou a ganhar peso depois dos 3 anos, quando passou cerca de um ano tomando corticoide por causa de uma crise respiratória. A mãe acredita que o remédio aumentou o apetite da filha. Também cita os mimos da família e as parcerias de Rafa, que é influenciadora digital, com lanchonetes e pizzarias.
“Tinha semanas que praticamente ela não comia comida à noite. Um dia era lanche, um dia era pizza, um dia era esfirra, um dia era comida japonesa.”
Por volta dos 8 anos, Rafa chorou ao sair para comprar roupa, porque nada servia. “E aí foi onde virou a minha chave”, diz Jessica. “Não tem como eu cobrar uma coisa que eu faço errado.”
A primeira tentativa de tratamento não foi adiante. No ano passado, depois de não aguentar subir um quarteirão numa caminhada, a menina voltou ao médico. Dessa vez, foi ela quem quis mudar.
“A casa inteira mudou”, diz Jessica, que também estava acima do peso. Hoje, ela prepara marmitas com a quantidade certa para a semana. Rafa come mais frutas, mas ainda não gosta de alface, tomate e couve. “Muitas coisas, mas eu me esforço”, diz Rafa.
“A gente tem que ser exemplo. A criança não faz com cobrança. Ela te imita, ela faz o que você faz”, afirma a mãe.
Rafa treina todos os dias. Como ela tinha trauma da balança, o médico passou a acompanhar a evolução pelas medidas, segundo a mãe. Numa das consultas, a menina tinha perdido 10 centímetros de abdômen. Quatro meses depois, mais 4. Ela não usa remédios para emagrecer e não passou por cirurgia.
“Agora ela não tem medo de sair pra comprar uma roupa”, diz Jessica. Perguntada se se sente melhor, Rafa responde: “Muito melhor.”
Nas redes, as parcerias com restaurantes ficaram raras, segundo a mãe. Hoje, Rafa treina na academia em troca de divulgação.
“É outra menina”
Thalia Leme de Oliveira, de 9 anos, é acompanhada pelo Nobin desde janeiro. Na casa dela, a mudança também começou pela mãe. Rosana de Andrade Leme mudou a alimentação depois de descobrir diabetes gestacional e, segundo ela, perdeu 30 quilos. No mesmo ano, um exame de rotina mostrou o colesterol da filha um pouco aumentado.
Thalia trocou o balé pela dança de rua e hoje faz atividade física a semana inteira. Chocolate e refrigerante viraram exceção. “A gente não tirou a comida dela. Ela foi tirando aos poucos”, diz Rosana.
Segundo a mãe, Thalia não gosta de faltar aos encontros das quartas-feiras e é ela quem lembra do horário. Para Rosana, ouvir os profissionais fez diferença: “As crianças escutam mais quando é outra pessoa”.
“Meu Deus, é outra menina”, resume Rosana. A própria Thalia lembra: “As minhas roupas ficavam muito grudadas, às vezes nem serviam”. Em 15 de novembro, ela vai apresentar a dança de rua em um teatro.
Como funciona o Nobin
O Nobin recebe crianças e adolescentes encaminhados pelas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) quando o quadro persiste por pelo menos seis meses, segundo a prefeitura. A primeira consulta é com a nutróloga Valéria Moro. Depois, a família frequenta, às quartas-feiras à tarde, atendimentos individuais e grupos com nutricionistas, psicóloga e educador físico, incluindo um grupo de apoio aos responsáveis.
“Não tem como contemplar todas as dimensões do tratamento com um único profissional”, afirma a nutricionista Gisele, que integra a equipe. Segundo ela, 61 pacientes passaram pela equipe desde a inauguração.
Por que tantas famílias faltam
As faltas somam 54% das consultas agendadas de janeiro a setembro, segundo a prefeitura. Nos retornos, chegam a seis em cada dez: 113 em 186 agendamentos. Entre os casos novos, 48 dos 111 pacientes não foram à primeira consulta.
“Obesidade é uma doença grave, crônica, multifatorial, de difícil tratamento”, diz Gisele.
Segundo ela, pesam a falta de quem leve a criança, o custo do transporte e o horário da escola. Como os encontros são à tarde, quem estuda nesse turno precisa sair da aula para ir. “Acaba que fica tudo em cima da mãe fazer tudo.”
A alta entre adolescentes
Em Ribeirão Preto, segundo o Sisvan, o percentual de adolescentes com sobrepeso ou obesidade passou de 22,8% em 2008 para 32,4% em 2016 e 37,9% em 2025. Em 2026, até setembro, foram 5.126 adolescentes nessa condição, ou 39,3% dos acompanhados.
Em 2025, o índice foi de 38,4% no estado de São Paulo e de 33,4% no Brasil.
Entre as crianças de 5 a 9 anos avaliadas em 2025 em Ribeirão Preto, 2.301 tinham sobrepeso e 2.134, obesidade, segundo a Secretaria Municipal da Saúde.
O Sisvan registra quem é pesado e medido nas unidades de saúde do SUS. Por isso, os números não representam toda a população da cidade.
O que diz a OMS
Segundo a OMS, 400 milhões de crianças e adolescentes de 5 a 19 anos tinham sobrepeso no mundo em 2024. Desse total, 170 milhões tinham obesidade. Entre menores de 5 anos, eram 35 milhões com sobrepeso.
A entidade define a obesidade como uma doença crônica e recorrente. Para adolescentes de 10 a 19 anos, as diretrizes admitem remédios para obesidade, mas só quando um programa supervisionado de mudança de hábitos não tiver dado resultado. A cirurgia bariátrica pode ser considerada em casos de obesidade grave, sob condições rigorosas.
A OMS também recomenda tratar obesidade e saúde mental juntas e desde cedo. Segundo a entidade, ansiedade, depressão e baixa autoestima podem levar a hábitos alimentares pouco saudáveis.
O que diz o especialista
Para Thiago Hirose, a pandemia de Covid-19 agravou o problema, com ansiedade, confinamento, falta de atividade física e aulas on-line. Hoje, segundo ele, pesa a soma de hábitos.
“As crianças estão dormindo menos, ficando mais tempo em casa, passando mais horas diante das telas e consumindo mais alimentos ultraprocessados, muitas vezes enquanto assistem à televisão.”
O médico has visto casos em crianças cada vez mais novas. Uma das complicações mais comuns, segundo ele, é a resistência à insulina, que dificulta a ação desse hormônio e pode favorecer pressão alta, diabetes tipo 2 e alterações no colesterol. Gordura no fígado, apneia do sono e alterações na puberdade também estão entre os riscos.
Além do peso, ele recomenda acompanhar a circunferência abdominal, sempre de acordo com a idade e com avaliação do pediatra. É a medida que a família de Rafa passou a acompanhar.
Na conversa com a criança, o médico defende tratar a obesidade como questão de saúde, e não só de estética, com linguagem adequada à idade e sem radicalismo. Envolver a criança no preparo das refeições e trocar tempo de tela por brincadeiras estão entre as estratégias que ele sugere.

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