ONU aprova resolução para incentivar uso de projeção cartográfica Equal Earth
Quick Look
A Assembleia Geral da ONU aprovou resolução que incentiva a adoção da projeção Equal Earth para reduzir distorções no tamanho dos continentes, corrigindo percepções distorcidas por projeções como Mercator e Gall-Peters, com impacto educacional e geopolítico potencial.
AI-generated summary
Why It Matters
A discussão sobre projeções cartográficas envolve o trade-off entre representar com precisão forma, área ou direção em mapas planificados de uma superfície esférica, com a projeção de Mercator sendo histórica por preservar ângulos para navegação, mas distorcer áreas próximas aos polos.
Mapa aprovado pela ONU para representar com melhor proporção a diferença de área entre os países. — Foto: Reproduçãio/equal-earth.com
A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou na sexta-feira (4) uma resolução que incentiva a adoção de uma nova forma de representar o mapa-múndi. A proposta, aprovada por 164 votos, busca reduzir as distorções no tamanho dos continentes causadas por projeções cartográficas utilizadas há séculos.
A discussão envolve principalmente a projeção de Mercator, criada no século 16 pelo cartógrafo Gerardus Mercator para facilitar a navegação marítima. O modelo se tornou uma das representações mais conhecidas do planeta e ainda aparece em mapas, materiais educacionais e ferramentas digitais. (Entenda mais abaixo.)
Um dos pontos a ser considerado é que não existe uma maneira de transformar perfeitamente uma superfície esférica, como a Terra, em uma superfície plana, como uma folha de papel ou uma tela. Toda projeção cartográfica precisa fazer algum tipo de distorção, que pode afetar o tamanho, a forma ou a localização das regiões.
Na projeção de Mercator, a distorção aumenta à medida que uma região se afasta da linha do Equador. Assim, áreas próximas aos polos aparecem maiores do que realmente são, enquanto regiões próximas ao Equador parecem proporcionalmente menores. É por isso que a África, por exemplo, pode parecer ter dimensões semelhantes às da Groenlândia, embora o continente africano seja cerca de 14 vezes maior.
Comparação entre o mapa Mercator e a nova proporção aprovada pela ONU — Foto: Reprodução / Ministério do Interior da França
Por que os mapas mostram tamanhos diferentes?
Até a aprovação do novo modelo pela ONU, haviam duas versões mais disseminadas de mapa-múndi: a projeção de Mercator (a mais comum e mais conhecida) e a projeção de Gall-Peters. Cada uma tinha escalas próprias.
Projeção de Mercator
Criada em 1569, a projeção de Mercator foi desenvolvida para resolver um problema prático da navegação. Ela permite que os navegadores mantenham determinadas direções no mapa de acordo com a bússola, o que ajudou a explicar sua ampla utilização ao longo dos séculos.
Para conseguir isso, porém, o modelo distorce progressivamente o tamanho das regiões conforme elas se afastam do Equador. Os meridianos, que na realidade se encontram nos polos, aparecem como linhas paralelas e igualmente espaçados no mapa.
O resultado pode ser percebido em comparações conhecidas:
África e Groenlândia: a Groenlândia pode parecer próxima do tamanho da África, embora a África seja cerca de 14 vezes maior;
Brasil e Alasca: os dois aparecem com dimensões semelhantes em algumas representações, embora o Brasil seja cerca de cinco vezes maior que o Alasca;
África e América do Norte: a África aparece proporcionalmente menor, apesar de ter aproximadamente o triplo da extensão da América do Norte.
À esquerda, a África no mapa Mercator e à direita, o continente no novo mapa aprovado pela ONU — Foto: Reprodução
Projeção de Gall-Peters
A projeção de Gall-Peters surgiu como uma alternativa que prioriza a representação proporcional do tamanho das áreas. Ela foi desenhada originalmente pelo escocês James Gall, em 1855, e difundida décadas depois pelo historiador alemão Arno Peters.
Nesse modelo, os continentes aparecem com proporções de área mais próximas das reais. A principal diferença visual em relação à Mercator é que regiões que pareciam relativamente grandes no mapa tradicional, como a Europa, passam a ocupar uma área menor, enquanto a África aparece significativamente maior.
Isso não significa, porém, que Gall-Peters seja uma representação perfeita do planeta. Assim como qualquer projeção, ela é uma tentativa de representar uma superfície curva em uma superfície plana e, portanto, envolve outras distorções.
Para além disso, a diferença entre os mapas não significa que haja um "certo" e o outro "errado". As projeções são maneiras diferentes de representar a superfície curva da Terra em um plano, e cada uma prioriza determinadas características.
Mapa mundi segundo projeção Gall-Peters — Foto: Wikimedia Commons
Novo modelo aprovado pela ONU: o que muda?
A resolução aprovada pela ONU incentiva governos, organizações internacionais e outras instituições a considerar modelos que representem de maneira mais próxima as dimensões reais das massas de terra. A iniciativa é conhecida como "Corrija o mapa" e tem apoio da União Africana.
O modelo apoiado pela campanha é o Equal Earth, chamado de "Terra Igual" no material da ONU. A projeção procura preservar melhor as proporções entre os continentes e oferecer uma representação mais próxima das áreas reais das diferentes regiões do planeta.
A proposta também parte da ideia de que os mapas não servem apenas para localizar países e continentes. Eles são usados em escolas, materiais didáticos, meios de comunicação, documentos oficiais e ferramentas digitais e, por isso, ajudam a formar a imagem que as pessoas têm das dimensões e da posição das diferentes regiões do mundo.
Segundo a resolução, as distorções podem ter efeitos cognitivos, educacionais, culturais e até geopolíticos. A mudança defendida pela ONU busca, portanto, incentivar uma representação mais próxima das dimensões reais dos territórios.
O que muda na prática?
Novo mapa aprovado pela ONU. — Foto: Reprodução
A aprovação da ONU não significa que o mapa de Mercator deixará de ser usado imediatamente. A resolução funciona como um incentivo para que governos, organizações internacionais e outras instituições considerem projeções diferentes e mais adequadas para representar o tamanho das massas de terra.
Na prática, a principal mudança está na forma como os continentes serão visualmente comparados.
Em um mapa baseado em Mercator, países e regiões próximas aos polos são ampliados. Com uma projeção que preserve melhor as áreas, como o Equal Earth, a África, a América do Sul e outras regiões próximas ao Equador passam a ocupar no mapa uma proporção mais próxima daquela que têm na realidade.
Isso significa que uma pessoa que aprenda geografia por meio desse tipo de representação poderá visualizar de maneira mais fiel a diferença de tamanho entre continentes e países. A África, por exemplo, deixa de parecer próxima em tamanho à Groenlândia e passa a ser apresentada com uma dimensão proporcionalmente muito maior.
Ou seja, a mudança nada tem a ver com uma mudança no tamanho real dos continentes — eles continuam exatamente como são. O que muda é a forma como suas dimensões são representadas em um mapa plano.
É justamente essa diferença que está no centro da discussão: não há um único mapa capaz de reproduzir perfeitamente uma Terra esférica em uma folha ou tela. A escolha de uma projeção determina quais características serão preservadas e quais serão distorcidas.
What to Watch
AI outlook — possibilities, not facts
A projeção Equal Earth será gradualmente adotada em materiais educacionais e institucionais nos próximos anos.
Likely · Within months
Open Questions
- Quais países ou instituições adotarão oficialmente a projeção Equal Earth?
- Como a mudança afetará currículos educacionais em diferentes sistemas de ensino?
- Há resistência prevista de setores acostumados com a projeção de Mercator?







