
Diante de rumores sobre uma possível nova mobilização militar na Rússia após as eleições parlamentares de setembro, cidadãos como Eradzh, Alexander e Ilia estão deixando o país ou se preparando para fugir, citando desconfiança nas negativas do Kremlin e riscos de convocação, enquanto autoridades russas insistem que não há planos para mobilização e destacam que o país ainda recruta mais tropas do que perde na Ucrânia.
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A Rússia realizou uma mobilização militar forçada em setembro de 2022, que levou centenas de milhares de homens a deixar o país e foi interrompida em semanas devido ao impacto social. Desde então, rumores sobre uma nova onda de convocação têm circulado, especialmente após as eleições parlamentares de setembro de 2024, alimentados por declarações de líderes ucranianos e relatos de inteligência ocidental sobre perdas russas no campo de batalha.
À medida que a ansiedade provocada por rumores sobre uma mobilização militar forçada começou a tomar conta de Moscou, Eradzh, um empresário de 36 anos, recorreu a seu assistente de inteligência artificial para analisar as notícias e calcular a probabilidade de uma convocação.
Por fim, a probabilidade ficou alta o suficiente para que ele pedisse ao programa que encontrasse um voo barato para fora da Rússia. Dentro de uma semana, Eradzh voará para o Chipre e passará pelo menos dois meses longe de Moscou.
Eradzh explicou sua lógica diante do fato de que a Rússia tem enviado dezenas de milhares de soldados voluntários ao campo de batalha na Ucrânia, atraídos por pagamentos elevados, enquanto obtém apenas pequenos avanços territoriais.
"Será que os soldados contratados provavelmente acabaram? Acabaram. Conquistamos alguma coisa? Não conquistamos. As negociações levaram a algum lugar? Não levaram. Putin vai se manter firme? Vai se manter firme."
"Haverá uma mobilização? Muito provavelmente, sim", disse ele recentemente em um café no centro de Moscou. Eradzh, assim como os outros entrevistados, aceitou falar sob a condição de que seu sobrenome não fosse divulgado.
Há meses, o temor de uma possível mobilização —uma segunda onda de convocação, depois da que começou em setembro de 2022— tornou-se parte da vida cotidiana em toda a Rússia.
Rumores de que Moscou poderia obrigar mais pessoas a lutar na guerra depois das eleições parlamentares de 20 de setembro tomaram conta dos espaços de informação online e são discutidos em cafés, trens e áreas para fumantes próximas a escritórios.
O Kremlin negou que qualquer mobilização esteja sendo preparada. Na quarta-feira (2), o presidente Vladimir Putin classificou os relatos como "completa bobagem" e um "ataque de informação contra a Rússia". Na quinta-feira (3), reforçou a negativa, dizendo que a Rússia tinha tropas suficientes e que "até hoje, não há nenhum cenário que exigiria uma mobilização."
Enquanto os rumores se espalham, as autoridades russas tentam transmitir uma sensação de tranquilidade. Moscou continua tão organizada e bem-cuidada quanto sempre, com pavilhões em suas avenidas centrais oferecendo exames médicos gratuitos sob o slogan: "Sua escolha é viver mais!"
Ainda assim, muitas pessoas não estão convencidas pelas garantias do governo. Elas citam negativas anteriores do Kremlin que acabaram se mostrando falsas, como as repetidas afirmações, em 2022, de que a Rússia não invadiria a Ucrânia nem realizaria uma onda de mobilização naquele setembro.
Os russos também apontam exemplos separados e, até agora, isolados de táticas de recrutamento mais duras, relatadas recentemente na região de Penza, a sudeste de Moscou. Também observam que o decreto de Putin que ordenou a convocação em 2022 continua tecnicamente em vigor e que, portanto, uma mobilização poderia ocorrer de maneira discreta.
Os temores foram alimentados por relatos da imprensa internacional que citam autoridades de inteligência ocidentais, segundo as quais a Rússia está perdendo mais tropas do que consegue recrutar, além de declarações de líderes ucranianos. Em agosto, o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, disse que a Rússia planejava convocar 300 mil pessoas após as eleições parlamentares. Zelenski fez uma previsão semelhante em abril de 2024.
Quando a Rússia realizou sua primeira grande mobilização forçada, em 2022, centenas de milhares de homens deixaram o país. A convocação abalou a sociedade russa a tal ponto que as autoridades correram para interrompê-la em questão de semanas.
Segundo analistas militares, aquela mobilização tinha como objetivo reforçar um Exército russo que estava à beira do colapso na Ucrânia. Em desvantagem numérica, as forças de Moscou abandonaram grandes áreas de território ocupado no leste e no sul da Ucrânia, deixando para trás seus equipamentos.
A situação atual da Rússia na linha de frente está longe de ser a que existia no outono de 2022, afirmou Dmitri Kuznets, analista militar.
Segundo Kuznets, ao contrário das avaliações ocidentais, a Rússia ainda estaria recrutando mais pessoas do que perdendo no campo de batalha, de acordo com dados verificáveis do orçamento russo, de bancos de dados de cartórios e de obituários. Ele também afirmou que, diferentemente de 2022, o Estado russo não teria dinheiro para pagar os convocados em uma nova onda de recrutamento em larga escala.
"Teoricamente, isso poderia ser usado para criar novas unidades e formações", disse Kuznets, referindo-se à convocação. Mas os possíveis ganhos seriam superados pelo risco de uma revolta popular em massa contra o Kremlin, acrescentou.
No fim, talvez apenas Putin saiba se haverá uma mobilização. Isso deixou os russos comuns sem saber o que fazer.
Alexander, 36, instrutor de academia em Moscou, disse que simplesmente se cansou de perder o sono e "ficar me perguntando infinitamente se isso vai acontecer ou não".
No fim de agosto, ele voou para a Tailândia com a mulher, que também é instrutora de academia e, segundo ele, chorou diante da possibilidade de perder a vida na Rússia. Como ex-integrante de uma unidade especial das Forças Armadas, ele disse que corria um risco elevado demais de ser convocado.
Ilia, 26, engenheiro, disse que decidiu sair depois que o Yabloko, único partido político que concorria com uma plataforma favorável à paz, foi retirado da disputa eleitoral. Ele também citou a escassez de gasolina provocada por ataques ucranianos e relatos de aumento do assédio a viajantes na fronteira como fatores que influenciaram sua decisão.
"Você não sabe o que as autoridades podem fazer para limitar sua liberdade de movimento e seus esforços para se manter vivo e bem", disse.
Outros que gostariam de sair não têm condições financeiras para isso. Alguns disseram que tentavam obter residência oficial em Moscou, que muitos acreditam que ficará protegida de uma convocação. Outros retiraram dinheiro de suas contas bancárias, temendo que os recursos possam ser bloqueados caso recebam uma convocação online e não compareçam a um posto de alistamento.
Mikhail, 40, que trabalha na indústria cinematográfica, disse ter procurado a ajuda de um psiquiatra depois de passar por tantos relatos sobre a possibilidade de uma mobilização.
"Estou tentando me tirar desse campo de rumores e especulações e voltar para algo que eu realmente sei", disse. "Mas, na verdade, não sei de nada."
Muitos disseram que uma nova onda de convocação seria muito mais difícil de evitar do que a de 2022, após a digitalização do sistema de recrutamento militar do governo.
As convocações para comparecer ao serviço militar agora são entregues eletronicamente. Quem não cumpre a determinação está sujeito a proibições automáticas de deixar o país, além da suspensão da carteira de motorista e do direito de realizar transações imobiliárias.
O sistema de penalidades automáticas ainda não funciona plenamente devido à falta de coordenação entre órgãos governamentais e a dificuldades técnicas, disse Grigori Sverdlin, fundador do Idite Lesom —expressão que significa "vá embora", em russo—, grupo que ajuda russos a evitar o serviço militar obrigatório.
Konstantin, instrutor de iatismo em São Petersburgo, disse que, embora tenha permanecido fora da Rússia durante a primeira onda de mobilização, em 2022, desta vez pretende ficar onde está.
"Durante aquela primeira convocação, muitos dos meus amigos tomaram medidas drásticas —gastaram muito dinheiro, tentaram obter cidadania em outros lugares, coisas assim", disse. "Mas, no fim, todos voltaram."
AI outlook — possibilities, not facts
As autoridades russas continuarão negando planos de mobilização enquanto monitoram a situação no front e os níveis de recrutamento voluntário.
Likely · Within weeks
Mais cidadãos russos buscarão deixar o país ou obter residência em regiões consideradas seguras, como Moscou, se os rumores de mobilização persistirem.
Likely · Within months

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