
A vitória da AfD na Saxônia-Anhalt reacende o debate entre explicações socioeconômicas e culturais para o voto de extrema direita, mas o autor argumenta que o histórico político da região, marcado por votações à direita desde a reunificação, sugere que fatores estruturais e de oferta eleitoral são mais determinantes do que imigração ou condições econômicas atuais.
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A Saxônia-Anhalt tem histórico de votações à direita desde a reunificação alemã, com o partido mais à direita vencendo consistentemente as eleições, seja a CDU no passado ou a AfD atualmente. O partido nazista também obteve resultados semelhantes na região há quase cem anos.
Como habitual de cada vez que um partido de extrema direita tem uma vitória retumbante, como aconteceu agora no estado alemão da Saxônia-Anhalt, os comentadores dividem-se em dois campos: um que dá prioridade às questões socioeconômicas, como desemprego, inflação e desigualdade; e outro que tende a explicar os fatos por causas culturais, como a imigração e a xenofobia. Em ambos os casos, o foco está em acontecimentos relativamente recentes, da última década ou pouco mais, que deveriam ter capacidade explicativa para fenômenos também eles recentes.
Vale a pena porém pensar no seguinte: neste mesmo estado alemão, há quase cem anos, o partido nazista teve resultados que são praticamente idênticos, com uma diferença mínima na casa dos décimos, aos que a AfD (Alternativa para a Alemanha, de extrema direita) teve nestas últimas eleições. A verdade é que historicamente a Saxônia-Anhalt foi sempre um estado muito à direita. Na era comunista isso ficou disfarçado, mas desde a reunificação alemã o partido mais à direita ganhou sempre as eleições. Só que em tempos esse partido mais à direita era a CDU (União Democrata-Cristã, de centro-direita conservador) e agora existe uma oferta mais à direita ainda.
Nessa dimensão histórica, convém lembrar que não há necessariamente contradição entre o período nazista e o período comunista. A AfD tem muita gente oriunda de movimentos neo-nazistas, mas também tem eleitos oriundos das fileiras da Stasi, a polícia política da Alemanha Oriental. Um dos deputados eleitos agora foi mesmo oficial da Stasi durante doze anos do período comunista. O que esses elementos trazem consigo (além de um historial de contatos com Putin, que enquanto elemento do KGB esteve estacionado na Alemanha Oriental) é uma capacidade de organização administrativa, de "governar", que vem de terem feito parte do aparato do partido único durante o período comunista.
Voltando atrás, o que fazer das causas socioeconômicas ou culturais como alternativas de explicação para o que se passou neste estado? Em meu entender, nem umas nem outras nos levam muito longe. A Saxônia-Anhalt é um dos estados alemães com menos imigrantes; os estados que têm mais imigrantes votam mais à esquerda. Isso não quer dizer que o tema não possa ter prevalência política, pelo contrário: é mais fácil demonizar quem não se vê. Mas significa que não é diminuir a imigração ali que fará dos eleitores menos tendentes a votar na extrema direita. Também as condições socioeconômicas são hoje bem melhores do que foram no passado; e na medida em que são difíceis para a juventude, bem mais difíceis são noutros estados em que o voto não é extremista.
Às vezes custa a crer que as pessoas não votem por ideias, daí que procuremos sempre os atalhos das "causas". Mas a verdade é que o eleitor autoritário existe, e o eleitor ultraconservador também. A questão é se existe oferta eleitoral para ele. A questão é também, para os partidos progressistas, se é possível mudar de assunto e falar para os mesmos eleitores.
AI outlook — possibilities, not facts
A AfD manterá força eleitoral na Saxônia-Anhalt nas próximas eleições devido à consolidação de uma oferta política à direita que atrai eleitores autoritários.
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