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Mãe tentou convencer o filho a se entregar, encontrou-o morto e hoje acolhe famílias atingidas pela violência na Penha
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G14 hours agoCrime5 min readBrazilView translation

Mãe tentou convencer o filho a se entregar, encontrou-o morto e hoje acolhe famílias atingidas pela violência na Penha

Tauã Brito perdeu Wellington na megaoperação nos Complexos da Penha e Alemão e hoje lidera o projeto Fênix para acolher mães enlutadas.

Quick Look

Tauã Brito, cuja mãe perdeu o filho Wellington na megaoperação dos Complexos da Penha e Alemão em 2025, criou o projeto Fênix para acolher mães enlutadas pela violência no Rio de Janeiro, enfrentando ameaças e cobrando justiça.

AI-generated summary

Why It Matters

Wellington Brito foi um dos 122 mortos em megaoperação policial nos Complexos da Penha e Alemão em 28 de outubro de 2025.

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“Eu não consigo olhar para ali e não enxergar o meu filho ali”. O desabafo é de Tauã Brito, mãe de Wellington Brito, um dos 122 mortos na megaoperação nos Complexos da Penha e Alemão, no dia 28 de outubro de 2025.

A confeiteira passou mais de 12 horas em busca do filho. Naquela manhã, saiu de casa na tentativa de encontrá-lo vivo e convencê-lo a se entregar à polícia, mas só encontrou o corpo durante a madrugada, na mata. Wellington estava entre as dezenas de mortos levados para a Praça São Lucas, na Penha.

Um ano da megaoperação: esta reportagem faz parte de uma série do g1 sobre os desdobramentos da ação realizada em 28 de outubro de 2025 nos complexos da Penha e do Alemão, com 122 mortos. Veja links para outras reportagens da série no fim da reportagem.

Meses depois, em meio ao luto, ela decidiu criar um projeto para acolher outras mães que também perderam seus filhos em contextos de violência.

O projeto Fênix, criado inicialmente com a intenção de oferecer oportunidades a jovens, passou a ser também um espaço de escuta para quem perdeu filhos e parentes e, muitas vezes, não encontra apoio para lidar com o luto.

Tauã Brito — Foto: Redes sociais

O dia da operação

Em entrevista ao g1, ela relatou que deixou a residência por volta das 8h e tentou chegar à área de mata onde acreditava que Wellington estava. Segundo ela, policiais fizeram disparos na direção dela para impedir que avançasse. Tauã afirma que só conseguiu entrar na região à noite, depois que os agentes saíram, e encontrou o corpo do filho por volta de 1h30 da madrugada seguinte.

A mãe disse que Wellington estava com uma corda amarrada no braço. Ela questiona as circunstâncias da morte e afirma que o filho deveria ter tido a oportunidade de se entregar à polícia.

A apuração das mortes ocorridas durante a operação está sob investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro e da Delegacia de Homicídios da Capital.

Moradores levaram corpos da mata até uma praça — Foto: Reprodução/Fantástico

Além de cobrar respostas sobre a morte do filho, Tauã relata que passou a sofrer ameaças e intimidações. Segundo ela, policiais fizeram comentários sobre Wellington e disseram que ela também deveria morrer.

“Teve policiais que mandou para mim: ‘tinha que ter deixado você entrar [na mata], que assim matava logo mãe e filho’. Outros mandaram assim: ‘você tem que morrer porque gosta de alimentar vagabundo’, falando que meu filho era vagabundo, né? Que eu tinha que morrer. E aí até que um mandou para mim assim: ‘A próxima vez eu vou na sua casa’, e aí mandou o meu endereço”, contou.

Tauã afirma que as ameaças são uma forma de intimidá-la. Com medo, ela deixou de morar no Complexo da Penha.

“Ou seja, eu não posso nem falar da morte do meu filho, porque eles querem é intimidar o tempo todo”, disse.

Da tentativa de ajudar jovens ao acolhimento de mães

A ideia inicial de Tauã era criar um projeto que ajudasse jovens a encontrar alternativas ao crime, com cursos profissionalizantes e oportunidades de trabalho. Ela já havia contado anteriormente que não apoiava o envolvimento do filho com o tráfico e tentava convencê-lo a abandonar o crime.

Mas, enquanto tentava tirar o projeto do papel, começou a receber mensagens de mães que haviam perdido filhos e não sabiam como buscar informações, orientação ou apoio.

“Em algum momento, o projeto Fênix vai chegar nos jovens, mas hoje o projeto Fênix precisa abraçar essas mulheres, porque o que acontece é que ninguém olha para essas mulheres. Ninguém olha para o familiar. As pessoas enxergam muito até o dia do sepultamento. E, quando passa o dia do sepultamento, ninguém olha”, disse.

Tauã Brito e o filho Wellington Brito quando era pequeno — Foto: Redes sociais

Segundo Tauã, a experiência de outras mães também a ajudou a entender que o sofrimento não termina com o enterro. Familiares precisam lidar com a ausência, com as lembranças da morte e com as consequências da perda para o restante da família.

“Vai passando o tempo. Ninguém mais fala dos filhos, nem a família mesmo mais quer ouvir. Mas aquela mãe tem necessidade de falar. Aquela mãe quer que o filho seja lembrado”, afirmou.

Atualmente, o projeto reúne cerca de 35 mães, de diferentes comunidades do Rio. Os encontros acontecem a cada 15 dias no espaço de uma iniciativa social da Penha, o Arte Transformadora, que cede o local para as reuniões.

Tauã organiza as atividades e conta com doações pontuais, como alimentos para um lanche durante os encontros. Na entrevista, ela contou que uma estudante de psicologia e amigas demonstraram interesse em colaborar com rodas de conversa e deveriam ir ao próximo encontro.

Tauã Brito e o filho Wellington Brito — Foto: Redes sociais

A dor de voltar à praça

A morte de Wellington também mudou a relação de Tauã com lugares da comunidade. Durante a festa infantil organizada por moradores na região da Praça São Lucas, na Penha, ela voltou ao local que evitava desde a operação. Tauã havia preparado o bolo do evento, mas a experiência foi emocionalmente difícil, segundo ela.

“Teve um momento que me deu um desespero. E aí eu comecei a chorar, me deu uma crise de ansiedade”, contou.

Ela disse que precisou de um tempo para se calmar e conseguir permanecer no local. A presença das crianças brincando ajudou a atravessar aquele momento, mas não apagou a lembrança do filho.

“Eu não consigo olhar para ali e não enxergar o meu filho ali”, relatou.

Tauã Brito na Praça São Lucas um ano depois — Foto: Redes sociais

Tauã também afirma que o apoio oferecido pelo projeto é importante para ela própria. Nos encontros, consegue falar sobre o que sente e chorar diante de outras mulheres que passaram por perdas semelhantes.

“Lá no Fênix, eu consigo chorar. Eu consigo colocar para fora os sentimentos que a gente vem suportando, tendo que se fazer forte o tempo todo”, disse.

Defesa de oportunidades para jovens

Além do acolhimento às famílias, Tauã defende que o poder público invista em educação, cultura, esporte, lazer e formação profissional nas favelas. Para ela, ações policiais letais não substituem políticas capazes de ampliar as possibilidades de vida dos jovens.

“O Estado entrou e matou. E aí, o que mudou? O que o Estado fez para mudar? Não fez nada”, questionou.

Tauã Brito no recebimento da medalha Chico Mendes — Foto: Redes sociais

Na avaliação dela, projetos comunitários precisam de apoio para continuar funcionando e alcançar mais pessoas.

“Se é um Estado que realmente está preocupado em querer mudar a realidade dos jovens, querer diminuir a violência, eu acho que é com oportunidades, com cultura, com lazer, com mais estudo”, afirmou.

Em março de 2026, Tauã foi uma das homenageadas com a 38ª Medalha Chico Mendes de Resistência, concedida pelo Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro a pessoas e entidades ligadas à defesa dos direitos humanos. A homenagem reconheceu sua atuação na denúncia da morte do filho durante a Operação Contenção.

Open Questions

  • Quais serão os resultados das investigações do Ministério Público?
  • As autoridades policiais responderão às denúncias de ameaça?

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This article was originally published by G1.

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