
Juliana Santiago, de 41 anos, foi atacada dentro do Centro Universitário Aparício Carvalho após recusar investidas sexuais do estudante.
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O crime ocorreu em fevereiro de 2026. Rondônia apresenta altos índices de violência contra a mulher, com crescimento de 66% nos feminicídios em um ano.
Na última aula que deu antes de morrer, Juliana Santiago prometeu aos alunos que aquela seria a “melhor matéria da semana”. Horas depois, a professora foi morta a facadas por um aluno dentro do Centro Universitário Aparício Carvalho (Fimca), em Porto Velho. Ele foi denunciado por feminicídio.
Juliana tinha 41 anos, era escrivã da Polícia Civil e também atuava como professora de Direito Penal.
O crime aconteceu em fevereiro de 2026. De acordo com testemunhas, o aluno do 5º período de Direito, João Cândido da Costa Junior, de 24 anos, aguardou Juliana ficar sozinha depois da aula e começou uma discussão. Na sequência, ele a atacou com um punhal. A professora foi atingida nos dois seios e sofreu uma laceração no braço. A defesa dele optou por não se pronunciar.
Em entrevista ao g1, Marisson Dourado, que era aluno da professora, contou que Juliana era uma pessoa otimista, positiva e acolhedora. Segundo ele, ela estava sempre preocupada em inovar e tornar as aulas mais leves e dinâmicas.
“Sabia identificar as nossas limitações, sabia identificar as nossas fragilidades e quase que com as próprias mãos tinha o prazer de ensinar e de transportar a gente. Empregou didáticas completamente novas. Fazia seminários completamente diferentes, com teatro”, disse.
Para o Ministério Público de Rondônia (MPRO), Juliana foi vítima de feminicídio. Segundo a denúncia apresentada pelo órgão, o crime aconteceu depois que ela recusou investidas sexuais feitas pelo aluno. Para a acusação, a recusa foi determinante para o assassinato.
“A recusa dela peremptória em não manter uma relação com ele foi um fator determinante para ele matá-la”, disse o promotor de Justiça Marcos Alexandre.
O assassinato de Juliana terminou em uma sala de aula. Mas, em muitos casos, a violência contra a mulher começa muito antes do feminicídio, com ameaças, perseguição, controle, agressões e outras formas de violência.
É justamente nesse intervalo, entre os primeiros sinais e a morte, que está uma das principais perguntas sobre o enfrentamento à violência contra a mulher: quando e como essa escalada pode ser interrompida?
Para Rosimar Francelino Maciel, coordenadora da Rede de Enfrentamento à Violência contra a Mulher em Rondônia, o feminicídio geralmente não acontece de forma isolada. Ele costuma ser o desfecho de um “continuum” de violências.
Segundo a especialista, alguns comportamentos podem indicar que a violência está se agravando e precisam ser identificados antes que a situação chegue a um episódio mais grave.
“Os principais sinais de agravamento são ameaças de morte ou suicídio, perseguição e controle, isolamento, agressões mais frequentes ou graves, estrangulamento, uso de arma, violência sexual, descumprimento de medida protetiva e separação recente. Esses fatores exigem avaliação imediata de risco e plano de segurança.”
A identificação desses sinais, no entanto, não depende apenas da vítima. Para que a violência seja interrompida, a rede de proteção também precisa conseguir reconhecer o risco e agir antes que a situação se agrave.
É nesse ponto que o papel de órgãos como polícia, Ministério Público, Justiça, saúde e assistência social se torna decisivo. A proteção não depende de uma única instituição, mas da capacidade de diferentes serviços identificarem situações de risco e trabalharem de forma integrada.
A Lei Maria da Penha completou 20 anos em 2026. A legislação criou mecanismos para proteger mulheres vítimas de violência, mas, segundo Rosimar, a existência da lei não foi suficiente para transformar, na mesma velocidade, as estruturas responsáveis pelo atendimento.
“Porque a lei alterou o marco jurídico, mas ainda não transformamos na mesma velocidade as estruturas que produzem e toleram a violência. A desigualdade de poder nas relações, o controle sobre a vida das mulheres, a naturalização do ciúme e da posse, a dependência econômica, a circulação de armas, o medo de denunciar e a subnotificação continuam presentes", explicou.
A especialista também aponta dificuldades na estrutura de atendimento às vítimas. Em Rondônia, as distâncias entre os municípios e a concentração dos serviços especializados tornam esse desafio ainda maior.
“A isso se somam falhas institucionais: serviços concentrados nas capitais, equipes insuficientes, atendimento descontínuo, demora na investigação e na perícia, falta de protocolos comuns e pouca integração entre segurança, saúde, assistência social, educação e Justiça", disse.
Conseguir uma medida protetiva, no entanto, não significa que o risco tenha acabado. Para que a proteção seja efetiva, é necessário acompanhar a situação da mulher e agir quando houver novos sinais de violência.
“Em Rondônia, é indispensável expandir as Patrulhas Maria da Penha e o monitoramento das medidas para os 52 municípios, com equipes e logística compatíveis, além de integrar bases de dados para que reincidência, ameaça, arma, separação e descumprimentos elevem automaticamente a prioridade do caso", afirmou.
Segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, Rondônia está entre os estados com os piores indicadores de violência contra a mulher. O número de feminicídios cresceu 66% em um ano. Com isso, o estado alcançou uma taxa de 2,9 vítimas por 100 mil mulheres, a segunda maior do país.
Em 2025, Rondônia registrou 25 feminicídios e 60 tentativas, segundo dados do Observatório Estadual de Segurança Pública. No mesmo ano, foram contabilizados 12.382 registros de violência doméstica. Entre eles, 6.322 eram casos de ameaça e 4.974, de lesão corporal.
Até o período contabilizado em 2026, já eram 5.314 registros de violência doméstica. Desse total, 2.747 eram casos de lesão corporal e 2.241 de ameaça.
Os números mostram que ameaças e agressões aparecem nos registros antes de muitos dos casos mais graves. O desafio é garantir que esses sinais sejam identificados e recebam uma resposta compatível com o risco.
Dados do Ministério Público de Rondônia (MPRO), referentes a 2024 e ao período de janeiro a outubro de 2025, apontam 7.628 processos relacionados à violência doméstica e familiar contra a mulher no estado. Desse total, 3.390 eram medidas protetivas de urgência, 1.635 eram inquéritos policiais e 1.732, ações penais.
No mesmo período, as Promotorias com atribuição no Tribunal do Júri e na área de Violência Doméstica ofereceram 56 denúncias por crimes de feminicídio em Rondônia. Porto Velho concentrou o maior número, com 19 denúncias, seguida por Vilhena, Ji-Paraná e Ariquemes, com cinco cada.
Segundo o MPRO, o tempo médio entre a instauração do inquérito policial e o oferecimento da denúncia foi de 114,52 dias. Entre a denúncia e a sentença, a média foi de 176,67 dias.
De 2007 a 2026, o Ministério Público de Rondônia (MPRO) ofereceu 37.722 denúncias com base na Lei Maria da Penha. Entre 2009 e 2026, foram requeridas 28.040 medidas protetivas de urgência, segundo dados fornecidos pelo órgão ao g1.
Além da atuação nos processos judiciais, o MPRO informou que mantém o Núcleo de Atendimento às Vítimas (NAVIT), que oferece acolhimento, informações, orientação jurídica, apoio e proteção a vítimas e familiares em situação de vulnerabilidade. O serviço também pode encaminhar as pessoas atendidas para acompanhamento psicossocial e de saúde, quando necessário.
O núcleo atende vítimas de violência doméstica e familiar, entre outros crimes, e pode atuar em todo o estado, presencialmente ou de forma remota.
A prevenção da violência também depende da identificação dos sinais de agravamento, da integração entre os órgãos responsáveis e de respostas rápidas diante de situações de risco.
“Feminicídios são crimes evitáveis. Quando uma mulher procura ajuda, o Estado não pode exigir que ela percorra sozinha uma sequência de portas, repita sua história e prove reiteradamente que está em perigo. A resposta deve ser imediata. A responsabilidade da rede é reconhecer o risco, agir antes da escalada e permanecer ao lado da vítima até que a proteção seja efetiva”, finalizou Rosimar Francelino.
Em caso de emergência, ligue para a Polícia Militar, no 190. Para denunciar casos de violência contra a mulher ou receber orientações, ligue gratuitamente para o Ligue 180. Em Rondônia, também é possível solicitar uma medida protetiva de urgência pela internet, no portal do Tribunal de Justiça de Rondônia (TJRO).
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