Não tenha pena dos millennials, eles estão melhorando de vida
Dados mostram que a geração millennial superou as dificuldades da década de 2010, acumulando renda, poder e patrimônio
Quick Look
A geração millennial, antes marcada por dificuldades econômicas, agora apresenta ganhos de renda real, maior ocupação de cargos de poder e taxas crescentes de propriedade imobiliária em 29 dos 32 países ricos analisados pela The Economist.
AI-generated summary
Why It Matters
A geração millennial enfrentou a crise financeira de 2007-2009, que impactou severamente o início de suas carreiras. Atualmente, a demografia e a escassez de mão de obra favorecem sua ascensão profissional.
Alguns dos clichês sobre os millennials ainda são verdadeiros. Nos Estados Unidos, essa geração, hoje entre pouco mais de 30 e cerca de 45 anos, pode ter gastado aproximadamente US$ 1,5 bilhão em abacates no ano passado, segundo uma estimativa aproximada da The Economist. Os millennials também realmente compram mais cerveja artesanal do que outras faixas geracionais.
Mas, nos países ricos, um estereótipo ainda mais persistente sobre eles deixou de corresponder aos fatos. Eles já não enfrentam as mesmas dificuldades de antes. Muitos ganham mais do que seus pais. Um número crescente ocupa cargos de verdadeiro poder nos negócios, na política e na cultura. A proporção de proprietários de imóveis aumenta rapidamente.
Isso representa uma guinada radical em relação à década de 2010, quando os millennials estavam na casa dos 20 anos. Durante o pior momento da crise econômica da Grécia, o desemprego entre os jovens superava 50%. Os salários dos britânicos dessa idade praticamente não cresciam. Movimentos sociais liderados por millennials —do UK Uncut ao Occupy Wall Street, nos Estados Unidos— davam uma ideia do grau de insatisfação com o status quo. O mesmo ocorria com o amplo apoio a veteranos da esquerda como Jeremy Corbyn, Jean-Luc Mélenchon e Bernie Sanders.
Muitos millennials ainda votariam nesses veteranos socialistas. Mas fazer isso atende cada vez menos a seus interesses econômicos. Levantamento da The Economist sobre a renda dos millennials em 32 países ricos mostra que, em apenas três —Itália, Grécia e Japão—, eles estão em situação pior do que as gerações anteriores tinham na mesma idade, considerando a renda corrigida pela inflação.
Aos 30 anos, os millennials italianos ganhavam 10% menos do que integrantes da geração X (nascidos aproximadamente entre 1965 e 1979) ganhavam nessa idade. Seus pares gregos continuam atrás dos jovens adultos da década de 2000, antes da crise iniciada em 2009. No Japão, a renda familiar de uma pessoa de 35 anos em 2019 era inferior à de alguém da mesma idade em 1994.
Ainda assim, esses três casos são apenas exceções. Nos outros 29 países de nossa amostra, os millennials têm renda real superior à das gerações anteriores. Em alguns, como Austrália, Reino Unido e França, o progresso entre gerações desacelerou. Mas em muitos outros, dos ricos Estados Unidos à Polônia, o ritmo de melhora se acelerou.
Além de estarem bem, em média, muitos millennials estão chegando ao topo. Um millennial americano tem hoje a mesma probabilidade de ocupar um cargo de gestão que um integrante da geração X tinha na mesma idade. O crescimento do setor de tecnologia nos Estados Unidos também enriqueceu a geração: os millennials representam quase um décimo dos bilionários americanos, mais que o dobro da participação da geração X em 2011. Millennials comandam a Anthropic, a OpenAI e a Meta, três potências da inteligência artificial — e, portanto, controlam uma das tecnologias mais transformadoras já criadas.
Mesmo na política, supostamente dominada pelos mais velhos, os millennials estão muito bem. Eles comandam os governos da Hungria, dos Países Baixos, da Arábia Saudita e da cidade de Nova York —e, em breve, provavelmente do Brasil (onde um direitista de 45 anos, jovem o bastante por pouco para se enquadrar como millennial, é o favorito para derrotar o atual presidente de esquerda, de 80 anos, no segundo turno da eleição presidencial em 25 de outubro). Os mercados de apostas atribuem uma probabilidade de cerca de 50% de que o próximo presidente dos Estados Unidos seja um millennial (três possíveis favoritos, Alexandria Ocasio-Cortez, Jon Ossoff e JD Vance, têm todos entre 31 e 45 anos).
A melhora da situação dos millennials tem duas causas principais: a economia e a demografia. A crise financeira de 2007-2009 os atingiu com especial dureza. Funcionários jovens são os últimos a entrar e os primeiros a sair, por isso sofrem mais durante uma recessão. Hoje, porém, o mercado de trabalho do mundo rico está tão forte quanto jamais esteve.
A demografia também ajuda. Depois da crise financeira, muitos baby boomers decidiram permanecer no mercado de trabalho por mais alguns anos para recompor suas reservas para a aposentadoria, o que reduziu o número de cargos seniores disponíveis para os jovens. Mas a pandemia de covid-19 acelerou as aposentadorias: um estudo nos Estados Unidos identificou 3 milhões de "aposentados excedentes" até o fim de 2022. Não há jovens trabalhadores em número suficiente para substituir os mais velhos que deixam seus postos. Os millennials se beneficiam dessa relativa escassez de mão de obra.
E quanto à moradia, a maior fonte de queixas dos millennials? Aos 30 anos, cerca de 40% dos millennials americanos tinham casa própria, proporção bem inferior à da geração X na mesma idade. Mas, entre os millennials mais velhos, agora na casa dos 40 anos, a taxa de propriedade de imóveis é exatamente igual à da geração X. No Reino Unido, embora aos 30 anos os millennials estivessem 20 pontos percentuais atrás das gerações anteriores, aos 40 haviam reduzido essa diferença pela metade, segundo o Institute for Fiscal Studies (IFS).
Os millennials mais velhos se beneficiaram da melhora da economia, que lhes permitiu poupar mais para dar entrada em um imóvel. Nos últimos anos, os governos flexibilizaram as exigências para financiamentos imobiliários. Muitos millennials com diploma universitário também precisaram de tempo para reduzir suas dívidas estudantis. Nossa análise de dados oficiais americanos indica que os jovens mais ricos de hoje (com renda superior a US$ 200 mil por ano) apresentam taxas de propriedade de imóveis muito inferiores às de jovens com condição financeira equivalente em gerações anteriores.
Se, em tese, dinheiro não é problema, qual é? Para começar, os millennials passaram mais tempo estudando do que as gerações anteriores. Também tendem a se casar mais tarde. Entre os homens americanos, a idade mediana no primeiro casamento é de 31 anos, ante 27 na década de 1990. Isso adia o momento em que precisam comprar uma casa para a família. Em parte porque as taxas de aquisição da casa própria estão aumentando, os millennials acumulam patrimônio mais rapidamente do que as gerações anteriores na mesma idade.
Acima de tudo, os millennials estão bem posicionados para o que virá a seguir. Se a inteligência artificial provocar disrupções no mercado de trabalho, os trabalhadores jovens voltarão a arcar com o peso maior. Se alguém tem motivos para se sentir infeliz, talvez sejam os integrantes da geração Z, nascidos aproximadamente entre 1997 e 2012, cujas perspectivas de emprego podem piorar à medida que seus gestores millennials investem em tecnologias que substituem mão de obra.
Os millennials também estão prestes a receber uma bolada em heranças. Estimamos que os bens deixados por pessoas falecidas já equivalham, a cada ano, a cerca de 10% do PIB (Produto Interno Bruto) em todo o mundo rico. O IFS calcula que, em termos reais, a herança mediana das pessoas nascidas na Inglaterra na década de 1980 será de cerca de 136 mil euros (US$ 180 mil), ante 66 mil euros para as nascidas na década de 1960. Não tenha pena dos millennials. Agora, a economia é deles.
Open Questions
- Como a IA afetará especificamente a geração Z?
- Qual o impacto real da transferência de heranças na desigualdade?






