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BackOs impactos extremos da zona da morte no corpo humano durante a travessia Everest-Lhotse
Os impactos extremos da zona da morte no corpo humano durante a travessia Everest-Lhotse
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G15 hours agoSports11 min readBrazil

Os impactos extremos da zona da morte no corpo humano durante a travessia Everest-Lhotse

Montanhista brasileira relata os desafios biológicos e mentais de escalar as montanhas mais altas do planeta.

Quick Look

A montanhista Olivia Bonfim detalha, ao lado do médico Marcos Bogado, as drásticas transformações físicas e mentais enfrentadas pelo organismo humano na zona da morte do Everest e do Lhotse.

AI-generated summary

Why It Matters

Olivia Bonfim tornou-se a primeira sul-americana a completar a travessia Everest-Lhotse, registrando o feito no Guinness ao lado do marido.

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Olívia Bonfim, montanhista, primeira mulher sul-americana a completar a travessia Everest-Lhotse — Foto: Arquivo Pessoal

O sangue engrossa até os vasos precisarem se alargar para deixá-lo passar. O coração dispara e não desacelera, nem em repouso. O corpo passa a consumir o próprio músculo para gerar energia, e a fome some justo quando ela seria mais necessária. É o que a altitude extrema faz com o organismo humano —e boa parte disso começa muito antes do cume de uma montanha.

A partir dos 8 mil metros, o processo ganha nome: zona da morte. É a faixa em que, mesmo com oxigênio na mochila, o corpo não consegue mais se adaptar e começa, aos poucos, a se degradar. Foi por esse território que Olivia Bonfim escolheu passar —não uma vez, mas duas, em menos de 24 horas.

Aos 35 anos, engenheira formada pela Universidade de São Paulo (USP), Olivia tornou-se a primeira sul-americana a completar o projeto Everest–Lhotse, que consiste em pisar nos cumes das duas montanhas, a mais alta e a quarta mais alta do planeta, em sequência.

Ela chegou ao topo do Everest, a 8.849 metros, na manhã de 21 de maio; na manhã seguinte, quase no mesmo horário, ao do Lhotse, a 8.516 metros —feito que rendeu a ela e ao marido, Carlos Santalena, guia da expedição, um registro no Guinness como primeiro casal a completá-lo.

Para explicar o que o organismo enfrenta nessa travessia, o g1 ouviu Olivia e Marcos Bogado, cirurgião torácico e montanhista que integrava a mesma expedição e que, no meio da subida, precisou trocar o papel de escalador pelo de socorrista.

Culpa é do oxigênio

Tudo se resume, primeiro, a uma conta de oxigênio. No nível do mar, a atmosfera oferece uma certa quantidade dele; a cada trecho de subida, essa oferta encolhe. No cume do Everest, o ar disponível cai para cerca de um terço do que se respira na praia.

“Se uma pessoa que vive ao nível do mar fosse levada diretamente a essa altitude, poderia morrer em poucas horas. O organismo não consegue se adaptar a uma mudança tão brusca”, diz Marcos.

É por isso que existe a aclimatação —e é aí que mora a primeira surpresa. Não há remédio, suplemento ou preparo de academia que substitua o processo.

"A única forma de se aclimatar é subindo", resume o médico.

A subida precisa ser lenta, em degraus curtos, com uma média de 500 metros ganhos por dia, que é o que o organismo consegue absorver sem entrar em sofrimento. Cada pessoa responde de um jeito, mas o princípio vale para todas: quanto mais devagar, melhor.

Por baixo dessa regra há uma reação em cadeia. Com menos oxigênio, o sangue fica mais espesso —e o frio seco das grandes altitudes ainda desidrata o corpo, que perde água para o ambiente e torna o sangue ainda mais viscoso.

Para acomodar esse sangue engrossado, os vasos se dilatam. Quando o processo avança rápido demais, líquido começa a se acumular onde não deveria. Os dois quadros mais temidos têm nome: edema pulmonar e edema cerebral, ambos capazes de matar.

“O princípio para enfrentar uma montanha alta é simples na teoria, mas difícil de seguir na prática: manter-se bem hidratado e subir devagar”, diz Marcos.

Cansaço nas coisas simples

Marcos Bogado e colegas durante a subida do Everest — Foto: Cortesia/Marcos Bogado

Com menos oxigênio para distribuir, o músculo cardíaco entra em regime de urgência. Ele precisa bombear mais para levar o pouco que há até as células, e a frequência cardíaca dispara. O coração passa a bater muito mais rápido apenas para manter o mínimo funcionando —uma aceleração que acompanha o montanhista o tempo todo, inclusive parado.

Olivia sentiu isso na pele antes mesmo de encostar em qualquer parede de gelo. Já no acampamento-base do Everest, a cerca de 5.400 metros, tarefas banais viravam provações.

“Até esforços simples, como subir uma pequena elevação ou ir ao banheiro, já me deixavam completamente ofegante”, conta.

Some-se a isso a fome que some nos primeiros dias e a dor de cabeça que aperta, e o retrato é de um corpo trabalhando no limite muito antes do cume. Por isso, diz ela, é essencial ter passado por montanhas menores antes: para não interpretar esse desconforto inicial como sinal de que algo deu errado.

A zona da morte

Existe uma altitude a partir da qual nenhuma preparação basta. Até certo ponto, subindo devagar, o corpo se adapta. Acima dos 8 mil metros, porém, mesmo com oxigênio suplementar e uma aclimatação perfeita, ele não consegue mais.

"A partir dessa altura, o corpo começa, lentamente, a se degradar", diz Marcos. É a faixa que os montanhistas chamam de zona da morte.

Ali, a permanência é medida em horas. Marcos lembra que há relatos de escaladores que passaram quase um mês acampados perto dos 7 mil metros e se adaptaram bem —mas acima dos 8 mil não existe adaptação possível.

“Há uma janela limitada para subir, alcançar o cume e iniciar a descida. Permanecer por tempo demais aumenta drasticamente o risco de não voltar.”

Por isso a etapa final é uma corrida contra o relógio —quanto menos tempo acima dos 8 mil metros, mais seguro. Olivia descreve, de dentro, o que os números explicam.

"O corpo começa a desligar algumas funções e a priorizar só o essencial", diz. "O raciocínio fica muito lento, a performance despenca, a digestão trava."

O oxigênio da máscara alivia parte disso —dizem que melhora a percepção como se a pessoa estivesse mil metros mais baixo—, mas está longe de apagar os efeitos.

“Mesmo com o oxigênio, tarefas simples do dia a dia passam a exigir um esforço muito maior.”

Mente começa a falhar

Subida do Everest — Foto: Olivia Bonfim/Arquivo Pessoal

Antes de ameaçar o pulmão ou o cérebro de forma grave, a altitude mexe com o raciocínio. O primeiro sinal costuma ser mal-estar, com náusea e uma dor de cabeça pulsante atrás dos olhos.

Se a pessoa sobe mais do que deveria, vem a confusão: o pensamento se arrasta, as palavras não saem direito, os movimentos perdem precisão. Marcos guarda a lembrança da própria estreia em alta montanha, no Kilimanjaro.

“Cheguei ao cume com a sensação de estar fora do corpo. Tinha dificuldade para coordenar os passos e já não conseguia me orientar direito.”

Com Olivia, a confusão assumiu uma forma quase surreal. Durante o ataque ao cume, um acidente grave à frente do grupo a deixou preocupada com um companheiro. Da máscara para trás, a memória embaralhou.

“Abordei quatro escaladores no caminho acreditando que fossem ele. Cheguei a abraçá-los e chamá-los pelo nome, até perceber que eram outras pessoas”, conta.

Só encontrou o amigo, de fato, no topo. A comunicação difícil, com a máscara de oxigênio no rosto, ainda piora a leitura do que acontece em volta.

Deitar e sentir que falta o ar

Marcos Bogado, montanhista e médico, ao chegar no cume do Everest — Foto: Arquivo Pessoal/Marcos Bogado

O sono, lá em cima, é quase um mito. Depois de um dia de escalada, é comum acordar no meio da noite com a sensação de sufocamento —o ar entra, mas o corpo insiste que não.

A explicação é mecânica, diz Marcos: durante o dia, com o esforço, o líquido tende a se acumular na parte de baixo do corpo; à noite, deitado, esse volume represado nas pernas retorna às veias e se concentra no pulmão. Daí a angústia de despertar sem fôlego.

Há ainda um efeito curioso, sem explicação fisiológica fechada: a tendência a ter pesadelos, que quase todo mundo relata na montanha.

O marido de Olivia costuma repetir a ela uma frase que virou lema. O importante não é dormir, é descansar, esticar o corpo —porque a noite reparadora do nível do mar não existe naquela altitude.

Nas primeiras noites em cada acampamento, com o coração acelerado e a vontade constante de urinar por causa da hidratação, o sono é picado. Ele só melhora quando o corpo já passou algumas noites na mesma altura.

Dez mil calorias

A fome some quando o corpo mais precisa de combustível. A sensação de escalar uma montanha alta, diz Marcos, é a de estar de ressaca 24 horas por dia —enjoado, com dor de cabeça, sem apetite.

O problema é a matemática por trás disso. No dia do ataque ao cume do Everest, o gasto calórico estimado passa de 10 mil calorias.

“Mas, com enjoo e fraqueza, mal conseguimos ingerir mil calorias”, afirma.

Olivia foi para o Everest com cerca de 57 quilos e voltou com 7 a menos —mais de 10% do próprio corpo, derretidos em 50 dias.

Pior do que a balança é o que acontece com o músculo. Numa atividade de longa duração, o corpo queima primeiro o glicogênio, a reserva rápida de energia —que acaba depressa. Em seguida, parte para a massa muscular. A gordura também é consumida, mas o organismo demora muito mais para metabolizá-la.

"Por isso, em qualquer esporte de endurance, e a escalada é um deles, a massa magra é a primeira a ir embora", explica o médico.

Olivia perdeu tanto músculo que nunca recuperou o preparo que tinha antes da montanha. As estratégias para conter isso passam por proteína —difícil de carregar in natura, então na forma desidratada, como o whey— e por suplementos como os aminoácidos de cadeia ramificada, os BCAA.

Segundo Marcos, o montanhismo talvez seja o único esporte em que há evidência científica de que esses aminoácidos ajudam a preservar massa magra.

Do acampamento 3 para cima, aliás, a comida vira só alimento liofilizado: um pó ao qual se acrescenta água quente, no estilo miojo. E até isso pode virar armadilha. No acampamento 4, achando que precisava de energia, Olivia tentou comer um macarrão desse tipo. “Fiquei pesadíssima e só voltei ao normal depois de vomitar."

Frio engana e sol cega

Expedição ao Everest — Foto: Olivia Bonfim/Arquivo Pessoal

Mesmo coberto por todas as camadas possíveis, o corpo continua perdendo a disputa contra a temperatura. Perto do cume do Everest, a coluna do termômetro despenca para 35, 40 graus abaixo de zero.

O saco de dormir suporta 50 graus negativos, há isolantes térmicos, e ainda assim se sente frio —porque o cansaço gera frio, a umidade agrava a sensação e nem sempre há uma muda seca para trocar a roupa suada. As soluções acabam sendo caseiras: uma garrafinha de água quente dentro do saco de dormir, aquecedores químicos enfiados na luva e na bota.

O mais perigoso, porém, é o frio que não avisa. "O congelamento é traiçoeiro", diz Olivia.

"No começo dói, depois para de doer e você perde a percepção de que aquela parte está congelando."

As extremidades —pontas dos dedos, orelhas, nariz— são as primeiras a sofrer, e há quem perca pedaços do corpo por não notar a tempo. Foi o caso do escalador que o grupo dela socorreu, já com áreas inteiras enegrecidas.

Há ainda uma ameaça que vem de cima. A neve reflete a radiação solar de todos os lados, e a exposição pode queimar a córnea —a chamada cegueira da neve, que deixa a pessoa dias sem enxergar direito, com a sensação de areia nos olhos.

Um integrante do grupo perdeu os óculos na descida e sofreu exatamente isso. A pele, por sua vez, volta ressecada e castigada.

"A montanha envelhece", diz Olivia. Sem como lavar o rosto com a água congelada, o cuidado se reduz a lenço umedecido, um hidratante e muito protetor solar.

Corpo da mulher tem contas a mais

A montanhista Olivia Bonfim — Foto: Arquivo Pessoal

Para as mulheres, a lista de desafios ganha capítulos extras. O primeiro aparece antes mesmo do embarque: Olivia costuma ter o ferro baixo por causa do fluxo menstrual, e o ferro é peça-chave da aclimatação.

"Para o corpo produzir os glóbulos vermelhos e se adaptar à altitude, é muito importante estar com o ferro em um nível bom", explica. Meses antes da expedição, ela reforça a suplementação e faz exames detalhados.

Depois vem a menstruação em si —inevitável numa viagem de 50 dias. Além da cólica, que a debilita a ponto de exigir um remédio forte, há a higiene, muito mais complexa quando não existe banho.

A escolha entre absorvente e coletor esbarra no esforço físico; a infecção urinária, mais comum entre as mulheres, entra na conta e obriga a levar antibiótico na mochila.

Algumas colegas recorrem a anticoncepcional para não menstruar na montanha; Olivia, que largou o método há tempos, prefere lidar com o ciclo.

"É um obstáculo a mais que só as mulheres enfrentam ali", diz.

Ver a morte de perto

Marcos Bogado durante escalada do Everest — Foto: Cortesia/Marcos Bogado

Poucas imagens acompanham o Everest como a dos corpos deixados pelo caminho. Eles existem, e é comum cruzar com alguns, dependendo de quanto a neve cobre ou revela a rota.

Perto do Cume Sul, num trecho estreito, há um corpo há anos no mesmo lugar —por vezes as pessoas precisam quase pisar nele para passar. Mas, tanto para Olivia quanto para Marcos, o mais pesado não é ver quem já morreu. É ver quem ainda está vivo e não se pode salvar.

Acima dos 8 mil metros, um resgate é praticamente impossível — em uma equipe estruturada, não há como retirar alguém dali. Em altitudes um pouco menores, às vezes dá.

Foi o que aconteceu quando Marcos e Carlos, marido de Olivia, encontraram, caído no gelo ao lado da corda fixa, um homem de cerca de 70 anos com a respiração já agônica, abandonado pela própria equipe porque não havia como carregá-lo.

“Aumentamos o oxigênio, administramos dexametasona injetável e o levamos de volta à barraca para aquecimento, enquanto acionávamos o resgate”, relata o médico. O homem sobreviveu.

O próprio Marcos quase virou estatística. A poucos metros do topo, a quase 8.800 metros, um bloco de gelo se soltou e um grupo despencou, preso pela corda fixa. Duas pessoas que não estavam ancoradas naquele instante cairam e morreram.

Ele ficou cerca de dez minutos pendurado sobre o precipício até conseguir se recompor e seguir. Olivia testemunhou o mesmo acidente de perto; dois integrantes do grupo dela ficaram entre os que se penduraram pela corda.

Não há preparo formal para a cabeça diante disso.

A volta ao nível do mar

Descer não devolve o corpo ao ponto de partida de imediato. Durante a expedição, a concentração do sangue sobe muito —mais glóbulos vermelhos para dar conta do pouco oxigênio.

De volta ao nível do mar, o organismo reverte o processo e elimina o excesso. Uma boa notícia embutida nisso: não há sequela neurológica, e o corpo reencontra seu equilíbrio. A má é que a adaptação também se perde rápido.

"Em cerca de dez dias, já se foi boa parte dela; em duas ou três semanas, praticamente toda", explica Marcos. Quem volta à montanha meses depois recomeça quase do zero.

Há, ainda, um risco a monitorar. Ficar muito tempo com o sangue tão concentrado aumenta a chance de trombose, embolia e até de infarto —sobretudo em quem já tem doença do coração ou histórico de AVC, para quem a aclimatação lenta e a hidratação cuidadosa deixam de ser recomendação e viram condição de segurança.

E o ponto de partida conta: quem vive em lugares altos se adapta com mais facilidade. Os sherpas, que moram em aldeias do Himalaia acima dos 4 mil metros, aclimatam-se muito melhor do que um brasileiro que sai do nível do mar.

O que o corpo aguenta

Olivia Bonfim e o marido, Carlos Santalena, durante a subida do Everest — Foto: Arquivo Pessoal

Open Questions

  • Quais serão as próximas expedições do casal?
  • Como evolui a recuperação muscular completa após a perda de peso?

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This article was originally published by G1.

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