
Pedagogia Uerê-Mello, criada por Yvonne Bezerra de Mello, recebe o David M. Rubenstein Prize por ensinar crianças e adolescentes do Complexo da Maré que vivem sob violência constante
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O Projeto Uerê atende crianças e adolescentes do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, com ensino complementar. Yvonne Bezerra de Mello desenvolveu a Pedagogia Uerê-Mello baseada em estudos de neurociência e experiência de campo, após trabalhar com meninos de rua e sobreviventes da chacina da Candelária. O método foi política pública na rede municipal do Rio de 2008 a 2015, no programa Escolas do Amanhã, e foi reconhecido pelo Unicef em 2017 como uma das melhores pedagogias do mundo para crianças e adolescentes em vulnerabilidade.
O Projeto Uerê, escola de ensino complementar que atende crianças e adolescentes do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, venceu o David M. Rubenstein Prize, da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, em Washington.
O prêmio vai para uma pedagogia criada pela educadora Yvonne Bezerra de Mello, fundadora e presidente do projeto, para ensinar quem não consegue aprender porque vive sob violência constante.
Aulas curtas, com a escrita no fim
A Pedagogia Uerê-Mello parte da ideia de que a dificuldade de aprender dessas crianças não é falha individual. É consequência do trauma, uma barreira que pode ser enfrentada de maneira sistemática, como descreve a Biblioteca do Congresso.
Yvonne explica que a exposição à violência provoca traumas que se tornam irreversíveis quando não são tratados a tempo. Certas áreas do cérebro deixam de funcionar de forma conectada, e a memória é a mais afetada.
A sala de aula é reorganizada a partir disso. A atenção de crianças do ensino fundamental, diz Yvonne, não passa de 15 minutos, e por isso ela defende que aulas de 50 minutos não deveriam existir.
No Uerê, as lições são divididas em blocos de 12 a 15 minutos. A aula começa com algo que desperte interesse, porque a memória de curto prazo dura pouco e só guarda aquilo que prende a atenção. Depois vem o trabalho em grupo, e a escrita fica para o fim. Ao longo de toda a aula, o ensino é oral, com exercícios cognitivos.
O ponto de partida dos alunos, segundo Yvonne, é de grande defasagem. Cerca de 75% chegam ao projeto sem saber ler nem escrever, em diferentes idades, com um atraso escolar médio de três anos.
Há estudantes do sexto ano que não conseguem fazer uma prova de terceiro ano. Em média, o Uerê leva um ano para alfabetizá-los. Segundo ela, não há evasão no projeto, e a lista de espera reúne 100 nomes.
Projeto Uerê recebeu da Library of Congress, em Washington, o David M. Rubenstein Prize, um dos mais importantes reconhecimentos internacionais na área da alfabetização.
Prêmio de alcance mundial
A Biblioteca do Congresso anunciou o prêmio em 8 de setembro, Dia Internacional da Alfabetização. O Uerê integra o grupo de 21 organizações premiadas no Literacy Awards 2026, programa da instituição patrocinado por David M. Rubenstein desde 2013 e, desde 2023, também pela Kislak Family Foundation.
Na 14ª edição do David M. Rubenstein Prize, o Uerê recebeu o maior valor do programa, acima dos US$ 100 mil e dos US$ 50 mil dados aos outros vencedores principais: o Literacy Center of West Michigan e a Read Alliance, nos Estados Unidos, e o Nal’ibali Trust, da África do Sul.
A Biblioteca do Congresso justificou a escolha pela contribuição mensurável do projeto para elevar os níveis de alfabetização e devolver a capacidade de aprender a jovens vulneráveis. O bibliotecário do Congresso em exercício, Robert R. Newlen, disse que os premiados souberam responder de forma cuidadosa às circunstâncias de cada aluno.
Para Yvonne, o reconhecimento vai além do projeto.
“O prêmio reconhece um jeito moderno de ensinar, em contraste com a escola tradicional, que já deu provas de não alfabetizar bem e deixa o Brasil entre os piores da educação mundial”, diz.
Das ruas ao viaduto, até a Maré
A origem da metodologia está em Paris, nos anos 1970. Estudante na cidade, Yvonne alfabetizava filhos de colegas refugiados e notou algo que não fazia sentido: as crianças jogavam, dançavam e brincavam sem dificuldade, mas não aprendiam a ler. Quis entender por quê.
A busca a levou a países africanos em guerra, como Sudão e Eritreia, onde encontrou as mesmas dificuldades em crianças expostas à violência constante. Voltou ao Brasil em 1982 e passou 13 anos trabalhando com meninos de rua, numa escola a que deu o nome de Sem Portas nem Janelas. Depois da chacina da Candelária, em 1993, ela conta que levou os sobreviventes para debaixo de um viaduto no Mangue.
Em 1998, fundou o Projeto Uerê na Maré, onde reencontrou o mesmo bloqueio no aprendizado. Em 2000, publicou o livro da pedagogia, baseado em estudos de neurociência e na experiência de campo.
Rio e mundo
Em quase três décadas, o projeto atendeu mais de 3 mil crianças, de acordo com a Biblioteca do Congresso. A metodologia também saiu da Maré. Yvonne diz ter capacitado cerca de 15 mil professores, em cidades como Recife, Volta Redonda e Petrópolis, na Ilha de Marajó e em países como Suécia, Alemanha, França, Polônia, Cabo Verde, Etiópia, Ruanda e Estados Unidos.
Na rede municipal do Rio, a pedagogia foi política pública de 2008 a 2015, no programa Escolas do Amanhã. Segundo a Biblioteca do Congresso, o método também foi levado a países europeus para apoiar crianças refugiadas de zonas de conflito.
Em 2017, de acordo com Yvonne, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) reconheceu a Pedagogia Uerê-Mello como uma das melhores do mundo para crianças e adolescentes em vulnerabilidade.
AI outlook — possibilities, not facts
O Projeto Uerê expandirá a capacitação de professores com o recurso do prêmio
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