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Turismo dos ventos: como o kitesurf movimenta centenas de milhões e transforma o litoral do Ceará
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G13 hours agoBusiness6 min readBrazil

Turismo dos ventos: como o kitesurf movimenta centenas de milhões e transforma o litoral do Ceará

Esporte náutico gerou receita de R$ 210 milhões para o estado em 2025; modalidade impulsiona economia, mas especialistas alertam para impactos ambientais e sociais.

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O kitesurf movimenta centenas de milhões de reais e transforma a economia e o litoral do Ceará, atraindo turistas nacionais e internacionais, mas especialistas alertam para riscos ambientais e conflitos sociais com comunidades locais.

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Why It Matters

O Ceará tem se consolidado como um dos principais destinos globais para a prática de kitesurf devido às condições constantes de ventos e clima favorável.

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Os ventos constantes e o mar 'flat', gíria do surf para dizer que as águas estão calmas e tranquilas, atraíram a nutricionista Carolina Sasaki, de 47 anos, até a praia do Cumbuco, em Caucaia, na Grande Fortaleza. Carolina faz kitesurf há cerca de dois anos e esta é a segunda vez que vem ao Ceará aproveitar a temporada de ventos.

Na mesma região, o empresário e kitesurfista Gláucio Esteves, de 52 anos, se divide entre administrar uma pousada e um hostel voltados a turistas interessados no esporte, e também aproveitar as horas livres onde mais gosta de estar: no mar. “O kite muda a vida”, resume.

Esporte náutico que gerou para o Ceará uma receita de R$ 210 milhões só em 2025, o kitesurf é uma atividade radical em que o praticante fica sobre uma prancha e usa a força do vento e da pipa para se equilibrar. Nos últimos anos, esportes que usam a força dos ventos, como o kite, o windsurf e wing foil, cresceram no estado e se tornaram ativos importantes da economia.

Nesta reportagem, entenda como o kitesurf tem impulsionado o turismo cearense. Além disso, saiba quais implicações ambientais e sociais o chamado 'turismo dos ventos' pode causar em comunidades praianas.

Natural de Brasília, mas moradora do Rio de Janeiro, Carolina Sasaki experimentou o kitesurf pela primeira vez nas águas cariocas, mas é no Ceará onde se sente mais segura para praticar com liberdade.

A nutricionista está no Cumbuco com o esposo e os filhos, que também praticam kite. A atividade, mais do que exercício físico, representa um momento divertido em família para eles, que devem passar cerca de oito dias no litoral.

"Muitas pessoas que moram no Rio e fazem kite há muito anos falaram para a gente vir ao Ceará. Aqui o vento é constante, não é rajado. Você tem lugares em que o mar está mais flat. A direção do vento é diferente. Por exemplo: no Rio de Janeiro, o vento joga você lá para o alto mar, aqui ele joga para a areia”, conta.

Nesta segunda viagem, Carolina optou por alugar um apartamento por temporada. O local conta com cozinha equipada, espaço amplo e piscina. A hospedagem fica a cerca de cinco minutos (a pé) do Centro do Cumbuco, onde a família encontra bares, restaurantes e outras opções de lazer.

O Cumbuco é um bairro turístico e famoso de Caucaia, localizado a cerca de 40 minutos de Fortaleza. Os passeios de buggy, esportes radicais e vida noturna chamam atenção de turistas de todo o mundo.

"De dois anos para cá o negócio evoluiu consideravelmente. Então, você tem bastante opção, bastante variedade para poder escolher, e de diversos preços. Para quem está aprendendo, o Ceará é muito propício. Faz uns dois anos que estamos envolvidos com isso. A gente não veleja maravilhosamente bem, ainda estamos só de aprendizado (...) Aqui é maravilhoso, me sinto segura", conta Carolina Sasaki.

Na mesma região do Cumbuco e a um minuto da praia, o pernambucano Gláucio Esteves, de 52 anos, se divide entre administrar uma pousada e um hostel voltados a interessados no kitesurf, e também aproveitar as horas vagas para praticar o esporte.

Gláucio conheceu o kite há 16 anos e revela que a prática mudou completamente sua vida. Jornalista de formação, ele já morou nos Estados Unidos, na Austrália e em estados brasileiros, como Paraná e São Paulo. No entanto, foi em solo cearense onde aprendeu a equilibrar uma paixão e o seu sustento.

"Eu vinha muitas vezes no ano para o Ceará para desenvolver [o kite]. Depois comecei a vir para períodos maiores, fui fincando raízes, comprei apartamento. Comecei a ver [que precisava] fazer alguma coisa aqui para ocupar meu tempo, ajudar a desenvolver o próprio turismo na cidade. Surgiu a oportunidade de ter uma pousada e entrei de cabeça", conta ao g1.

Gláucio concorda que as condições climáticas fazem do Ceará uma referência nos esportes náuticos. Os ventos, a temperatura da água e o calor formam o cenário perfeito para se aventurar sobre a prancha.

O empresário comanda uma pousada na região há cerca de quatro anos. Já a criação do hostel é recente. O espaço também oferta pacotes de aulas de kitesurf.

"Eu acho que o potencial do Nordeste, do Ceará, é incrível. Falta um pouco de investimento em infraestrutura para acolher melhor o turista, em relação à comunicação e mobilidade. Nós temos uma extensão muito longa de praias e o deslocamento [entre elas] às vezes é difícil. E tem muitos lugares onde a internet não funciona. E a conectividade ajuda até para a pessoa se sentir mais segura. Muita gente hoje é nômade digital, que trabalha home office", pontua o empresário.

Além do próprio Cumbuco, Gláucio às vezes tira uma folga para praticar kite em outras regiões propícias, como a Taíba, Ilha do Guajiru, Paracuru e Tatajuba. Para ele, é um privilégio poder se desconectar e relaxar.

As histórias de Carolina e Gláucio, dois turistas que escolheram o Ceará para passear e trabalhar, ajudam a entender como o chamado ‘turismo dos ventos’ tem se tornado um grande indutor da economia do estado.

As práticas esportivas movimentaram no Ceará, em 2025, o montante de R$ 1,4 bilhão, dos quais R$ 210 milhões estão relacionados somente ao kitesurf.

No primeiro semestre deste ano, mais de 2 milhões de pessoas visitaram o estado. Boa parte delas procurava o turismo esportivo, em especial o kite. Os dados são da Secretaria do Turismo do Ceará (Setur-CE).

"Há quase 20 anos o estado foca no desenvolvimento do Ceará enquanto destino turístico e também como destino desse turismo de aventura voltado para os esportes náuticos, esportes de ventos. Uma das pautas é promover o estado no restante do país, no restante do mundo, para que cada vez mais a gente consiga atrair mais visitantes para o nosso estado", explica Gustavo Montenegro, secretário de Turismo.

De acordo com o gestor, os turistas que aqui desembarcam são, principalmente, de países europeus, como Portugal, França, Itália e Espanha. Da América do Sul, argentinos e uruguaios também lotam o estado. Já no Brasil, o maior fluxo vem do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Nem só de entusiasmo deve viver o setor do “turismo dos ventos” do Ceará, aponta um especialista consultado pelo g1. O professor Alexandre Queiroz, do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e pesquisador do Observatório das Metrópoles, explica que os impactos da chegada de visitantes às comunidades praianas devem ser medidos, priorizando o bem-estar da população que ali já vive.

Alexandre é membro do Laboratório de Planejamento Urbano e Regional (LAPUR). Em abril deste ano, ele publicou um artigo em parceria com Eustógio Wanderley Correia Dantas, intitulado "Correlação entre segundas residências e esportes náuticos no litoral do Ceará, Brasil".

A pesquisa indica uma ligação entre a disseminação do kitesurf no estado e o crescimento do mercado imobiliário sazonal, com a construção de hotéis, pousadas e outros estabelecimentos voltados para o kite e demais esportes do mar. Segundo Queiroz, essas edificações podem gerar danos ambientais e sociais.

"A construção desses empreendimentos causa impactos ambientais, como a ocupação intensiva das zonas de praia por pousadas, que vai gerar uma transformação intensa no campo de dunas e áreas de restinga. No futuro, pode haver impactos que acelerem a erosão costeira ou que gerem problemas no lençol freático. Isso é um derivado da atividade do kitesurf, que motiva e acelera a incorporação imobiliária", pontua o pesquisador.

Outro impacto apontado pelo especialista é de nível social e envolve relatos de trabalhadores dessas regiões praianas. São pescadores que criticam as práticas esportivas por elas restringirem as áreas possíveis de uso para a pesca ou gerarem acidentes com as embarcações.

“Muitos pescadores relatam que isso (esportes no mar) impede algumas práticas de pesca e de extração de mariscos ou de outras atividades. De certa maneira, isso também monopoliza os usos da praia em alguns casos, porque eles são muitos, em grande quantidade”, pontua Alexandre.

Não se trata, no entanto, de estigmatizar o kitesurf ou qualquer outro esporte náutico no Ceará. Dados do Governo do Ceará mostram que a presença dessas práticas representa geração de renda e empregos em diferentes municípios. O que Alexandre pontua é a necessidade de medir possíveis riscos ao funcionamento social e ambiental preestabelecido e garantir que as comunidades antigas não sejam afetadas.

Sobre as problemáticas, o titular da Secretaria do Turismo do Ceará, Gustavo Montenegro, explica que a pasta atua para fiscalizar e mitigar possíveis danos ambientais e sociais. Para ele, o turismo de natureza e a sustentabilidade devem andar juntos.

"É necessário que a gente preserve o ambiente, que a gente preserve o nosso próprio produto turístico. E o praticante que vem ao Ceará, vem justamente buscar isso, buscar os nossos recursos naturais. Então, se a gente não tiver eles, acaba esse turismo. O governo do Estado vem investindo muito em saneamento, em saneamento sanitário, em ordenamento, em preservação ambiental e também enxergando essas adaptações que as mudanças climáticas precisam acompanhar junto aqui com o crescimento da atividade".

A expansão dos esportes do mar, em especial kitesurf e wingfoil, também movimentou a Assembleia Legislativa do Ceará (Alece). A casa discute a criação de regras para as modalidades, com medidas voltadas ao fomento, à segurança, à profissionalização e ao incentivo ao turismo esportivo gerado por elas.

O Projeto de Lei nº 25/2026, de autoria do Governo do Estado, propõe regulamentar a prática dos esportes de vela em praias, lagoas e demais corpos hídricos públicos do Estado. A pauta está em tramitação na Alece.

What to Watch

AI outlook — possibilities, not facts

  • A Assembleia Legislativa do Ceará deve votar o Projeto de Lei nº 25/2026 sobre esportes de vela.

    Likely · Within months

Open Questions

  • Como o Projeto de Lei nº 25/2026 afetará a rotina dos pescadores locais?
  • Quais medidas práticas o governo adotará para conter os danos ambientais nas dunas?

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This article was originally published by G1.

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