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Na Bolívia, o aborto é permitido desde 2014 em casos de estupro, e menores de idade não precisam de autorização dos responsáveis. Apesar desse direito legal, meninas vítimas de violência sexual frequentemente enfrentam pressão de grupos religiosos e familiares para continuar a gestação, como ocorreu com A.A., de 11 anos, que inicialmente consentiu com o aborto, mas revogou o consentimento após ser pressionada por informações falsas e ameaças dentro de um hospital público.
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Em agosto de 2021, a família da menina A.A., de 11 anos, descobriu que ela estava grávida de 20 semanas. A criança era abusada havia anos pelo pai do padrasto e escondeu os abusos por medo de retaliação.
Cerca de um ano depois, em setembro de 2022, assistentes sociais descobriram que outra menina, também de 11 anos, estava grávida de três meses. Ela havia sido estuprada por um tio e já tinha um filho de menos de um ano, fruto de abusos cometidos por um primo.
As duas expressaram o desejo de interromper a gestação. Só uma teve o direito a fazê-lo.
A história de A.A. se tornou objeto de uma ação que chegou ao Tribunal Constitucional Plurinacional da Bolívia. A corte decidiu que organizações religiosas não podem interferir na decisão de uma paciente sobre o aborto legal e que o Estado tem o dever de proteger crianças e adolescentes vítimas de violência sexual.
Tudo começou quando A.A. foi levada a um hospital público e afirmou desejar o aborto. Na Bolívia, o procedimento é permitido em casos de estupro desde 2014, e menores de idade não precisam de autorização dos responsáveis.
Segundo a Defensoria Pública, funcionários do hospital permitiram que grupos religiosos entrassem na unidade para pressionar A.A. e sua mãe. A menina disse ter sido informada de que precisaria comprar um pote para guardar o feto; a mãe recebeu uma ligação afirmando que seria presa. A criança então revogou o consentimento.
Defensores ingressaram com uma ação afirmando que a mudança de posição havia sido baseada em informações falsas e ameaças. A corte de primeira instância determinou que o aborto deveria ser realizado, o que aconteceu em novembro de 2021. O caso chegou ao tribunal constitucional, que entendeu que a desistência não poderia ser considerada uma manifestação autônoma de vontade.
A corte ressaltou que uma paciente pode mudar de ideia sobre um procedimento médico, mas essa decisão precisa ser livre e informada. Medo provocado por informações falsas, pressão ou indução pode comprometer o consentimento.
A sentença estabeleceu limites para a atuação de organizações religiosas: indivíduos e entidades podem professar suas crenças e oferecer apoio, mas não usar essa posição para influenciar uma paciente dentro de um serviço de saúde. Convicções religiosas não podem substituir informações médicas nem conduzir uma pessoa a determinado resultado.
O Estado, concluiu a corte, tinha a obrigação de impedir esse tipo de interferência e garantir que A.A. recebesse informações adequadas à sua idade e maturidade.
A sentença foi comemorada por ativistas por direitos reprodutivos e deve influir no atendimento de saúde de outras mulheres e meninas, afirma o coordenador de políticas do Ipas Bolívia, Martín Vidaurre. O advogado conta que a sentença, embora esteja datada de março de 2026, só foi divulgada em agosto.
A segunda menina é uma brasileira, do Piauí, cuja trajetória foi revelada pela Folha. Ela já estava em um abrigo para adolescentes vulneráveis após ter sido obrigada a manter uma primeira gestação, resultado de estupro. Na segunda gravidez, grupos religiosos pressionaram a família e chegou a ser nomeado um defensor público para atuar em favor do feto. A menina revogou o consentimento, levou a gestação a termo e entregou o bebê para adoção.
Outros casos vieram à tona no Brasil, como o da menina do Espírito Santo, de 2020. Ela conseguiu interromper a gravidez porque a avó manteve sua decisão apesar da pressão externa. No Brasil, diferentemente da Bolívia, é necessária a autorização dos responsáveis.
A resolução do Conanda (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente), que pretendia estabelecer diretrizes para o atendimento a crianças e adolescentes que precisam de aborto legal —inclusive em situações de discordância entre familiares—, foi revogada pelo Senado em junho.
Duas meninas, duas histórias semelhantes, dois desfechos. Os dois casos expõem, por caminhos opostos, o peso das instituições na distância entre um direito reconhecido e a possibilidade concreta de exercê-lo.
Uma mulher para conhecer
Myriam Bregman (1972)
Vale a pena conhecer a deputada trotskista argentina Myriam Bregman, sobre quem escrevi na semana passada. Bregman tem aparecido em pesquisas de opinião como uma política muito bem avaliada.
Do ponto de vista pessoal, fiquei surpresa de ver amigos argentinos nada trotskistas muito empolgados com a possível candidatura dela à presidência do país vizinho, como alternativa de oposição a Javier Milei à esquerda do peronismo e do kirchnerismo. Isso porque o equivalente brasileiro ao partido de Bregman, o PTS, seria o MRT (Movimento Revolucionário dos Trabalhadores), que não possui representação política institucional, como parlamentares.
Em que pese a óbvia dificuldade de chegar ao mais alto posto de um país afirmando que não fará alianças com os poderes constituídos, não deixa de chamar a atenção que uma deputada "zurda" (o apelido pejorativo dado à esquerda e adotado por Bregman) tenha alcançado algum apoio "mainstream".
AI outlook — possibilities, not facts
Outros países da América Latina analisarão a decisão do Tribunal Constitucional da Bolívia como referência para regulamentar a atuação de organizações religiosas em decisões médicas relacionadas ao aborto.
Likely · Within months
A pressão de grupos religiosos sobre pacientes em unidades de saúde na Bolívia diminuirá devido à clara proibição estabelecida pela corte.
Possible · Within months

The fake news inquiry, opened 7 years ago at the STF under the report of Alexandre de Moraes, is the subject of debate about its closure. The investigation, marked by controversy, ranges from prior censorship to social media blocking and breaches of confidentiality.

The MPF appealed to the TRF-1 to demand that the Union, State of Acre and the Municipality of Rio Branco remove tributes to agents of the military dictatorship from public property, proposing the creation of technical commissions and a Memory Center in the capital of Acre.

Parents who expelled their teenage son from home after revealing his sexual orientation were ordered by the Court in Jaguaruna (SC) to pay compensation of R$100,000 and delete discriminatory posts.

Muriaé councilor, Antônio, was sentenced to almost four years in open prison after documents and minutes revealed incompatible travel schedules. The defense informed that it will appeal, and the City Council is awaiting an official summons.

Lawyer Kelen Cristina Ribas da Silva received an urgent protective measure in Curitiba after being attacked by her client's ex-partner in a child support case. This is the first time that the Maria da Penha Law has been applied in this way in Paraná.

For the first time in almost 11 years, Samarco and three former managers were criminally convicted for the collapse of the Fundão dam, in Mariana (MG), which occurred in 2015, following a decision by the TRF6.