Eleição de Flávio não garante ajuste fiscal, que precisará de plano imediato, mas efeito gradual, diz Felipe Salto
Economista-chefe da Warren Investimentos defende plano de ajuste gradual de quatro anos, independentemente do vencedor das eleições
Quick Look
- O economista Felipe Salto alerta que a vitória de qualquer candidato não garante ajuste fiscal automático.
- Ele defende um plano coeso de quatro anos para controlar a dívida pública, criticando ajustes abruptos e enfatizando a necessidade de reformas estruturais.
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Why It Matters
O Brasil enfrenta desafios fiscais com crescimento de gastos obrigatórios e renúncias fiscais. O debate eleitoral foca na viabilidade de cortes de gastos e na manutenção da credibilidade perante o mercado.
Um dos maiores especialistas em contas públicas do país, Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos, olha com distanciamento a empolgação do mercado com uma eventual eleição do senador Flávio Bolsonaro (PL). Para ele, a vitória do candidato não garante, automaticamente, uma organização das contas públicas.
Salto defende que, seja qual for o resultado das eleições, o ganhador deve mostrar imediatamente após o segundo turno qual é o plano de ajuste, que necessariamente terá que passar por temas espinhosos, como Previdência, pisos constitucionais, abono salarial, emendas parlamentares, subsídios e subvenções e revisão da renúncia fiscal.
A execução do plano, porém, deve ser diluída em quatro anos, na sua visão. Ele acredita que o Brasil não tem condições de receber um ajuste abrupto, que pode inclusive causar uma recessão no país, diz.
Para ele, a apresentação de um plano coeso e eficaz de controle da dívida pública independe de mudança de regras fiscais. O economista acredita que o atual arcabouço é suficiente para comportar os ajustes necessários, com apenas algumas alterações pontuais, como a diminuição do limite de crescimento do gasto público.
Confira a entrevista na íntegra.
Qual será o peso das medidas eleitorais do presidente Lula no próximo governo?
Meu número chega a R$ 48,6 bilhões no orçamento, incluindo as medidas para o MEI, a recomposição do Bolsa Família e o novo programa pré-anunciado para estudantes universitários, além do Desenrola, que tem uma intersecção com a renegociação de dívidas bancárias do MEI, e a PEC para zerar a tarifa de transporte público nos fins de semana.
É uma pressão fiscal expressiva, mas, no meu cenário aqui na Warren, parte disso já estava incorporada nos cálculos para o resultado primário, como no caso do reajuste do Bolsa Família, para o qual havíamos assumido uma premissa desde junho de 2025. De todo modo, é um quadro fiscal delicado, ainda que distante da insolvência.
Como o PLOA [Projeto de Lei Orçamentária Anual] de 2027 ainda nem foi aprovado pelo Congresso, esse tema entrará na dança. Será preciso organizar os números do ano que vem, no detalhe, para que algum superávit já comece a aparecer.
É factível um superávit em 2027?
Esse objetivo, de gerar algum superávit [de 0,1% do PIB], já está no PLOA. Mas ainda faltam as condições para ser alcançado. Há muita receita superestimada, como no caso da CBS [Contribuição sobre Bens e Serviços; novo imposto federal criado na reforma tributária], e as despesas estão subestimadas, dadas as novas pressões.
Importante ter claro o ponto de partida: estimo hoje um déficit primário de 0,38% do PIB para 2026. Não é o fim do mundo. Dá para resolver com uma boa combinação de experiência, competência técnica e liderança política. Não vamos nos esquecer de que as medidas relevantes dependem do Congresso.
A Folha noticiou que a equipe de Flávio quer cortar R$ 250 bilhões com correção na Previdência, saúde e educação. Esse tamanho de corte realmente pode ser alcançado com essas medidas?
Todos que se debruçam sobre as contas públicas sabem que o problema fiscal atual se desdobra em dois: elevado crescimento do gasto primário, sobretudo o obrigatório, e nível impeditivo de gastos tributários, também conhecidos como renúncias fiscais. Sem atacar essas duas questões, nada feito. Sobre a proposta que você cita, precisa ver em que prazo o ajuste se materializaria. A meu ver, ele deveria se espalhar ao longo dos anos, mas teria de ser aprovado dentro de um plano coeso ainda neste ano.
Os temas da Previdência, inclusive dos militares, dos pisos constitucionais, do abono salarial, do Fundeb [Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica], das emendas parlamentares, dos subsídios e subvenções, da revisão da renúncia fiscal e das transferências intergovernamentais, tudo isso, não tem jeito, precisará ser debatido. Minha proposta é o caminho do meio. O Brasil não é dado a ajustes abruptos. Nas democracias consolidadas, a Constituição dá o norte.
O ministro do Planejamento disse à Folha que, em um governo petista reeleito, haverá ajuste das contas em 4 anos. Como o sr. enxerga essa fala?
Essa é justamente a linha que eu proponho desde 2024 em artigo publicado na Ilustríssima com Josué Pellegrini. Não tem cabimento fazer corte repentino. Não é viável politicamente. O PIB já está apontando para 1% de alta no ano que vem. Imagine se fizessem um ajuste fiscal abrupto. Seria o mesmo que adotar a recessão como política para o primeiro ano. Isso não é razoável, não é tecnicamente sustentável e não passa no Congresso. E o bom é que os assessores, de lado a lado, sabem disso.
As nossas simulações mostram que seria possível gerar um superávit em torno de 0,3% do PIB no ano que vem até chegar a algo como 2% do PIB até 2030. O mercado anteciparia os efeitos positivos disso nos juros, de imediato, desde que o plano fosse aprovado no Congresso. A dívida/PIB ainda cresceria, mas, dependendo da evolução dos juros, poderia se estabilizar em pouco tempo. Os vencedores do Prêmio Nobel deste ano nos ensinam, por a mais b, que expectativas importam.
Como o governo Lula pode acenar ao mercado para passar credibilidade?
Neste momento, até as eleições, o governo está no "modo gastar". As medidas anunciadas têm efeito fiscal relevante, sobretudo para 2027. Ao mesmo tempo, o outro lado também está na defensiva, porque, em meio a um segundo turno tão acirrado, fica complexa a tarefa de prometer ajuste, como chegaram a fazer em algum momento. Neste caso, só vamos poder avaliar a capacidade de prover os sinais corretos no pós-segundo turno das eleições. O ideal é que se apresente um plano completo, com um ajuste por etapas. Não se pode deixar para avaliar ano a ano ou mês a mês. Tem de ter um compromisso efetivo desde o primeiro momento.
Com as regras fiscais atuais a dívida pública pode ser estancada em um período curto?
Pode. Não se trata mais de debater regras, mas de aprovar medidas de ajuste. É preciso superar esse anseio de, a cada novo mandato, fabricar novas regras fiscais. As que estão aí já nos servem muito bem.
Perder tempo discutindo regra fiscal é colocar em risco a elaboração e a aprovação de um plano de medidas efetivas de ajuste.
Basta, a meu ver, calibrar os parâmetros do atual arcabouço, com um teto mais baixo, isto é, trocar o limite de crescimento do gasto de 2,5% para 1% em termos reais. O fundamental é aprovar um plano com rapidez. Essa é a chave. Não é um ajuste de uma só vez, mas um plano de uma só vez para ser seguido à risca por quatro anos.
As medidas ventiladas de um governo de Flávio Bolsonaro passam confiança?
O mercado recebeu bem a vitória do senador no primeiro turno. Isso é inegável. O rali na bolsa, no dólar e nos juros futuros aconteceu. Mas minha interpretação é um pouco distinta da que observo. Na verdade, a média do mercado enxerga que a eleição de Flávio equivaleria, quase que automaticamente, a ter uma economia mais bem encaminhada, com contas públicas reorganizadas. Isso não é necessariamente verdadeiro.
Ambos os candidatos precisarão enfrentar a realidade no dia 26 de outubro, porque ela vai se impor. O mercado só continuará otimista no caso de se conceber, para valer, um programa de consolidação fiscal à altura de uma dívida alta e crescente como é a atual.
Raio-X - Felipe Salto, 39
Economista-chefe e sócio da Warren Investimentos, foi secretário da Fazenda e do Planejamento do Estado de São Paulo (2022) e o primeiro diretor-executivo da IFI (Instituição Fiscal Independente) do Senado. É membro do Conselho Superior de Economia da Fiesp e professor de finanças públicas no IDP. É formado em economia e mestre em Administração Pública e Governo, ambos pela FGV. Possui o Prêmio Jabuti em Economia (2017) e foi Economista do Ano pela OEB (2023).
What to Watch
AI outlook — possibilities, not facts
Apresentação de plano de ajuste fiscal após o segundo turno.
Likely · Within weeks
Open Questions
- Qual será o plano de ajuste fiscal detalhado do vencedor?
- Como o Congresso reagirá às propostas de corte?






