Em 10 anos, Sou da Paz identifica 92 casos de CACs ligados ao PCC, CV, milícias e outras facções no Brasil
Estudo inédito do Instituto Sou da Paz aponta que colecionadores, atiradores e caçadores abasteceram facções como PCC e Comando Vermelho em 21 estados.
Quick Look
- Estudo inédito do Instituto Sou da Paz mapeou 92 casos de envolvimento de CACs com o crime organizado entre 2016 e outubro de 2026 no Brasil.
- Integrantes de facções obtiveram armas legalmente ou usaram registros falsos para abastecer o crime em 21 estados.
AI-generated summary
Why It Matters
A categoria de CACs teve limites de aquisição ampliados entre 2019 e 2022, sendo revista em 2023 com a retomada de regras mais restrictas.
Um levantamento inédito do Instituto Sou da Paz identificou 92 casos de envolvimento de CACs (colecionadores, atiradores desportivos e caçadores) com organizações criminosas entre 2016 e outubro de 2026. O g1 teve acesso aos dados do estudo desses últimos dez anos.
Os registros envolvem integrantes de facções que obtiveram armas por meio de registros de CAC e também pessoas habilitadas no sistema que passaram a abastecer o crime organizado com armas e munições.
Foram analisados processos, boletins de ocorrência, inquéritos e reportagens para o estudo do Sou da Paz.
"Dois padrões se repetem. No primeiro, pessoas que já tinham registro, ou que foram recrutadas por facções para obtê-lo, compram armas e munições legalmente e as desviam para criminosos", afirma Bruno Langeani, consultor sênior do instituto. "No segundo, integrantes de grupos criminosos tiram o registro em nome próprio, às vezes com documentos falsos, e usam o arsenal comprado de forma legal em suas atividades."
Os casos envolvem o Primeiro Comando da Capital (PCC), Comando Vermelho (CV), milícias, grupos de extermínio, facções regionais e quadrilhas especializadas em roubos a banco. Eles estão distribuídos por 21 estados. São Paulo lidera com 18 registros, seguido por Espírito Santo (11) e Rio de Janeiro (10).
O que são os CACs
Os CACs existem há décadas no Brasil. A categoria permaneceu prevista na legislação após a aprovação do Estatuto do Desarmamento, sancionado pelo presidente Lula em 2003.
Entre 2019 e 2022, durante o governo do presidente Jair Bolsonaro, normas federais ampliaram limites para compra de armas e munições. Em 2023, de novo com Lula na presidência, parte dessas regras foi revista, com a redução dos limites de aquisição e a retomada da classificação anterior de armas de calibre permitido e restrito.
Liderança do CV com registro de armas
Um dos casos mais recentes do envolvimento de CAC com o crime organizado tem Leonardo Felipe Panono Scupin Calixto, o Léo Bode, apontado por investigadores como liderança do Comando Vermelho no interior paulista. Ele está foragido.
Documentos analisados pelo Sou da Paz indicam que ele possuía certificados de registro de armas emitidos pelo Exército. Em um processo analisado pelo g1, policiais relataram que armas apreendidas em Rio Claro estavam registradas em seu nome.
Mais casos pelo país
O levantamento reúne episódios em diferentes regiões.
Na fronteira com o Paraguai, Levi Adriani Felício, apontado como integrante da cúpula do PCC, possuía certificado de CAC. Ele chegou a ser preso em 2019 no país vizinho. Foi acusado de ser um dos principais fornecedores de armas e drogas para facções criminosas brasileiras.
No Espírito Santo, investigações apontaram um integrante de facção catarinense que usou documentação falsa para obter registro de colecionador e uma segunda apuração, a Operação Downfall, relacionou em 2023 um traficante à compra legal de um fuzil por meio de registro fraudulento de CAC.
Na Paraíba, a Operação Fake Shooter investigou integrantes da facção Okaida. Os criminosos se passavam por CACs para comprar armas para a quadrilha. Eles foram presos em 2023.
No Rio, Luiz Paulo de Lemos Júnior, o "Chupeta", apontado como integrante do Escritório do Crime, possuía registro como CAC. Ele é um miliciano ligado a a Ronnie Lessa, assassino confesso da vereadora Marielle Franco, que foi alvo de operação em 2024.
Em Santos, Raphael Batista, o "Aprontinho", foi investigado por usar suas cotas de CAC para abastecer o mercado ilegal.
Já na Bahia, um homem conhecido como "pagodeiro do PCC", Vagner Borges Dias, o Latrell Brito, possuía registro e armas legalizadas. Em 2025, ele estava preso e foi condenado a mais de 50 anos de prisão por fraudes em licitações e lavagem de dinheiro.
O caso Bazzana
Preso em 2025 em uma investigação da Polícia Civil e do Ministério Público do Rio de Janeiro, ele é suspeito de fornecer armas, carregadores e munições ao Comando Vermelho, no estado fluminense.
O Sou da Paz afirma que a apuração também menciona integrantes da família Bazzana em procedimentos relacionados à documentação de armas usadas por investigados ligados à facção. A defesa nega as acusações.
Alcance nacional
O instituto afirma que o levantamento reúne apenas casos tornados públicos. "Trabalhamos apenas com casos que vieram a público e nos quais as autoridades informaram que o investigado era CAC. O número real é certamente maior, e por isso não é possível medir com precisão quanto o problema cresceu", diz Bruno Langeani.
Segundo ele, os dados mostram expansão geográfica e diversificação dos grupos envolvidos. "A primeira coisa que os dados mostram com segurança é que a abrangência geográfica aumentou: os casos públicos passaram de seis estados, entre 2016 e 2019, para 20 estados, entre 2023 e 2026."
"A segunda é que se diversificou o perfil de quem usa esse canal. Além das facções do tráfico, como PCC e Comando Vermelho, aparecem quadrilhas do novo cangaço, milícias, grupos de extermínio, pistoleiros e grupos de grilagem de terras."
"A terceira é que o material desviado ficou muito mais grave, após os decretos do Bolsonaro: há casos de uma única pessoa repassando várias pistolas ou dezenas de milhares de munições de uso restrito", falou Langeani. "O presidente Lula voltou com a antiga classificacao de armas de calibre permitido e restrito. E reduziu o quantitativo de armas e municoes, ao mesmo tempo que passou a exigir mais comprovacoes de CACs."
Sobre a fiscalização, Langeani afirma: "A fiscalização era do Exército até 2025. Ano passado passou para a PF [Polícia Federal]. Estes são os fiscalizadores com competência principal, mas quando entram crimes de tráfico de arma, comércio ilegal e fabricação ilegal, aí são as polícias civis estaduais."
O g1 procurou as secretarias da Segurança Pública de São Paulo, Espírito Santo e Rio de Janeiro, além da Polícia Federal e do Exército Brasileiro e aguarda posicionamento.
Raio-x do levantamento
A série histórica contabiliza os 92 casos:
2016: 4
2017: 1
2018: 4
2019: 2
2020: 2
2021: 6
2022: 13
2023: 19
2024: 19
2025: 17
2026: 5 (até início de outubro)
Total: 92 casos
What to Watch
AI outlook — possibilities, not facts
Órgãos de segurança devem se posicionar sobre o levantamento.
Likely · Within days
Open Questions
- Qual será a resposta oficial das secretarias de segurança e do Exército?
- Quantos registros irregulares ainda estão ativos no sistema?







