
Especialista da Deloitte discute os desafios de medir o retorno sobre o capital investido em inteligência artificial e o futuro dos modelos de negócio.
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O mercado global de tecnologia enfrenta um debate sobre a sustentabilidade dos investimentos massivos em infraestrutura de IA e data centers.
As gigantes globais tecnológicas estão investindo pesado para implementar e aprimorar a inteligência artificial. A BofA Global Research estima que, até 2028, os aportes globais apenas em data centers devem ultrapassar os US$ 2,1 trilhões, ou R$ 10,44 trilhões na cotação atual.
Não é à toa que, com tamanho dinheiro gasto, haja temores de uma bolha causada por um investimento excessivo na tecnologia, sem um retorno financeiro à altura. Todo dia um especialista tem uma previsão catastrófica nesse sentido.
Mas para Caroline Yokomizo, sócia-líder de transformação financeira da empresa de consultoria e auditoria Deloitte, isso acontece porque o mercado ainda não conseguiu implementar formas de mensurar os reais ganhos com a IA. Quando isso acontecer, diz, o mercado vai capturar de forma mais clara os benefícios da tecnologia e haverá espaço para uma valorização ainda maior das ações dessas companhias, que já vivem um "boom" na Bolsa de Valores.
Os investimentos em IA são cada vez maiores e o mercado ainda é assombrado por uma bolha que possa ser causada por essa tecnologia. Qual sua visão sobre o assunto?
Quanto ao fato de a conta ser alta, já vimos tendências. Há um boom da Nvidia, por exemplo, com as ações de todas as big techs disparando, e o mercado começa a questionar se há uma bolha ou não. A bolsa americana bate altas seguidas, e essas ações só se valorizam. Existe um investimento muito alto, muita compra [de equipamentos], como esses GPUs [Unidade de Processamento Gráfico], e o benefício ainda não está sendo medido. Talvez por isso a percepção de que a conta é muito alta.
Mensurar os ganhos pode mudar essa percepção de que é uma bolha?
A partir do momento em que as empresas entenderem qual é o mecanismo de medição e começarem a implementá-lo, elas vão obter os ganhos de maneira mais governada ou mais controlada. Há estudos do mercado americano segundo os quais, no próximo ano, principalmente no primeiro semestre, será possível ver uma valorização e uma captura de benefícios mais claras nos Estados Unidos. No mercado brasileiro, ainda estamos bem no início, de forma embrionária, e se fala muito mais do custo do que do benefício.
Quando a implementação da IA vai significar redução de custos?
Pensar que se faz esse investimento somente para reduzir custo leva a um lugar errado, porque estamos falando de uma tecnologia que pode mudar modelos de negócios. Uma empresa que comercializava determinado produto de determinada forma deve se perguntar se o consumidor continuará comprando dessa forma. Que tipo de posicionamento de mercado é preciso mudar, visto que o acesso à informação hoje é muito diferente?
A própria forma de comparar custos de TI [tecnologia da informação], observar tendências e cenários preditivos, em vez de apenas aceitar o que já foi feito, traz mais elementos para negociar de forma diferente. Isso vai abrindo uma série de novas oportunidades, que vão além da redução de custos e podem incluir novas formas de receita. Medir apenas "investir tanto, reduzir tanto" é muito superficial, eu diria.
Quais novas oportunidades a IA abre para as empresas?
Falamos muito sobre eficiência e produtividade: quero usar a IA para reduzir custos, para aumentar a minha margem ou para conseguir fazer mais com menos. Essa é a temática mais comum. Mas uma tendência muito forte é a predição de cenários. Com toda essa reconfiguração global, com os conflitos geopolíticos que afetam as tarifas, é preciso simular cenários. Há um conflito no Irã: como isso afeta o mercado de petróleo? Como isso funciona para empresas altamente dependentes de commodities atreladas ao dólar ou a moedas voláteis?
Hoje, muitas dessas simulações ainda são feitas de maneira manual, no Excel, por exemplo. Há um potencial enorme de simular cenários, simular custos de produção, quantas pessoas a empresa vai precisar ter. Esse planejamento dinâmico de cenários ainda é pouco explorado.
A IA trouxe diversos desafios para a sociedade atual. Qual o maior desafio para as empresas?
O que temos visto é que as organizações, de maneira geral, já estão entendendo que o dado transacional é ouro, é o novo ouro. Não vão querer colocar isso em qualquer nuvem ou na mão de um terceiro, por exemplo, se tiverem dados confidenciais de propriedade intelectual, fórmulas-base, base de clientes, base de fornecedores. Por mais que custe mais caro, a empresa vai querer ter o dado em casa. Naturalmente, isso trará um custo para esse arcabouço.

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