
Especialistas explicam a origem do conceito, sua relação com o fundamentalismo religioso e o impacto na ocupação de esferas de poder
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A teologia do domínio propõe que cristãos devem exercer controle sobre esferas públicas. O conceito ganhou visibilidade no Brasil após a eleição de 2018.
A proximidade com as eleições e a relação de parte da igreja evangélica com o poder político reacenderam o debate sobre a teologia do domínio, com vídeos sobre o tema circulando em grupos de mensagens e nas redes sociais. Mas o que de fato é teologia do domínio?
Especialistas explicam que o conceito é o resultado de um conjunto de correntes teológicas nas quais cristãos acreditam ter um mandato divino para assumir o controle de todas as instâncias de poder e esferas públicas. Ou seja, não basta estar presente na sociedade, é preciso exercer o domínio sobre ela.
No Brasil, esse fenômeno ficou mais evidente a partir de 2018 com a eleição de Jair Bolsonaro (PL) para a Presidência. Com o slogan "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos", Bolsonaro nomeou um ministro "terrivelmente evangélico" para o Supremo Tribunal Federal e adotou políticas conservadoras voltadas ao modelo de família tradicional e à proteção da moral cristã.
O movimento de alguns cristãos para dominar a sociedade começou antes, nos Estados Unidos, no início do século 20, segundo Magali Cunha, pesquisadora do Iser (Instituto de Estudos da Religião).
Ela explica que uma das correntes que deram início à teologia do domínio surgiu entre cristãos calvinistas, os seguidores da tese de João Calvino de que Deus tem o controle de todas as coisas. O chamado fundamentalismo religioso nasceu com o objetivo de preservar a fé cristã do que consideravam um perigo ou ameaça, como a revolução industrial e suas modernidades.
Nessa tentativa de proteger a fé cristã surge o que hoje os evangélicos chamam de batalha espiritual, ou seja, a luta do bem contra o mal. O sociólogo Rodrigo Toniol, colunista da Folha, destaca que há territórios, instituições, cidades e diferentes esferas da vida social que para os evangélicos podem estar sob influência do mal e que precisam ser reconquistadas para Deus. "Portanto, ‘dominar’, aí, significa antes de tudo fazer prevalecer o bem sobre o mal", afirma.
Cunha explica que uma outra teologia surge a partir da Segunda Guerra Mundial para responder às demandas políticas da época. A proposta não é só proteger a fé, mas ocupar todas as áreas da sociedade. Chamada de dominionista, essa tese parte de uma leitura do livro de Gênesis, quando Deus dá ao homem o poder de dominar sobre a sua criação.
"Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que rastejam sobre a terra", diz o livro de Gênesis, capítulo 1, verso 28.
Para o teólogo e antropólogo Igor Shimura, professor da UFPR (Universidade Federal do Paraná), a lógica da teologia do domínio vem do Velho Testamento da Bíblia, onde também estão registradas guerras em nome de Deus.
Shimura explica que igrejas pentecostais e neopentecostais, como Universal e Assembleia de Deus, são exemplos de denominações que se baseiam mais no Velho Testamento, ao contrário das igrejas reformadas, como as presbiterianas, que aplicam mais o Novo Testamento.
Isso explica em parte, diz Shimura, o fato de igrejas pentecostais estarem mais presentes na política e na teologia do domínio. A Igreja Batista da Lagoinha, por exemplo, criou o Clava Forte Bank. Porém, para Cunha é um equívoco associar a tese do domínio aos pentecostais. Ela lembra do ex-ministro da Educação Milton Ribeiro, do governo Bolsonaro, que é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil e foi exonerado do cargo após revelação de "balcão de negócios" do MEC.
Outra tese que contribui para a dominionista é a teologia dos sete montes ou das sete montanhas. Elas representam as áreas que os cristãos devem dominar como uma ordem de Deus. São elas: família, religião (a própria igreja), educação, política, mídia, artes e economia.
Segundo Shimura, essa ideia representa uma tentativa dos cristãos de reconstruir a sociedade a partir dos valores bíblicos, e não só influenciá-la.
Essa tese estabelece a ideia de controle, não só de presença ou influência cristã, o que é natural, explica o professor da UFPR. "Influenciar, vai influenciar, lógico. Mas, quanto? Qual o limite da influência? Se você não tem um norte de qual que é o limite, você vai indo e daqui a pouco vira predatória", disse.
Como teólogo, Shimura explica que estar presente e participar da sociedade faz parte da missão evangélica, mas isso não significa controlar ou dominar.
"Onde estão os crentes? Estão em todos os lugares, certo? Agora, nós não precisamos dominar todos os lugares. É isso que é o ponto", diz Shimura.
O pastor e teólogo Sergio Moreira, autor do livro "A Teologia do Domínio", ressalta que a ideia de instalar um domínio evangélico sobre a terra é um equívoco. Isso porque o próprio Jesus disse que o reino de Deus não pertence a este mundo, mas está dentro de cada cristão. E lembra do verso que diz que "o reino de Deus está entre vocês", no evangelho de Lucas.
"O reino de Deus é espiritual. A igreja, que representa o corpo de Cristo na terra, é a manifestação do reino de Deus. Nós devemos ensinar os valores de Jesus, não impor. Impor é um grande erro. Nenhuma fé deve ser imposta", diz Moreira.
Shimura diz não ter dúvida de que existe uma teologia do domínio em curso no Brasil, orientando parte dos cristãos a fazer o que líderes religiosos desejam. Porém, ele pondera que a palavra "domínio" assusta um pouco. "O evangélico médio não quer dominar nada. Ele quer viver a vida dele com Jesus. Agora, quem tem interesse político, sim, aplica a teologia do domínio porque quanto mais cargo, mais poder", afirma.
Cunha lembra que o Brasil é um país laico, o que deve garantir a liberdade de culto a todos os grupos religiosos, inclusive a quem não tem uma religião.
"Quando um grupo religioso tem um projeto de poder e nesse projeto ele quer legislar e criar políticas públicas com base em uma única perspectiva religiosa, a gente tem um problema, porque mesmo entre os grupos religiosos há diferentes perspectivas. Isso compromete o Estado democrático de Direito", afirma Cunha.
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