
Quatro meses após ter as mãos decepadas em Quixeramobim, Ana Clara Antero de Oliveira relata processo de reabilitação e planos de se tornar ativista.
Quatro meses após sofrer tentativa de feminicídio e ter as mãos reimplantadas, Ana Clara Antero relata recuperação em Fortaleza, planos para cursar Direito e atuação como palestrante contra a violência de gênero.
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Ana Clara Antero de Oliveira foi vítima de tentativa de feminicídio em Quixeramobim no dia 1º de maio, tendo as mãos decepadas.
“Uma nova fase, uma nova vida”. É assim que Ana Clara Antero de Oliveira, de 21 anos, que teve uma mão decepada e a outra parcialmente mutilada em uma tentativa de feminicídio no Ceará, define a nova rotina após quatro meses da tragédia. A jovem ficou quase um mês internada no Instituto Doutor José Frota (IJF), na capital, onde passou pelo reimplante das duas mãos.
O crime ocorreu em Quixeramobim, no interior do Ceará, a cerca de 200 quilômetros de Fortaleza, no dia 1º de maio. Os suspeitos do crime, o ex-namorado de Ana Clara, Ronivaldo Rocha dos Santos, e o irmão dele, Evangelista Rocha dos Santos, foram presos e se tornaram réus por tentativa de feminicídio.
Após o trauma, Ana mantém a esperança de recuperar completamente os movimentos dos membros e traça dois novos objetivos: cursar faculdade de Direito para ajudar outras mulheres vítimas de violência e se tornar uma ativista da causa.
Em nova entrevista ao g1, ela detalhou como tem sido a rotina, entre tratamento médico, palestras e recuperação da autoestima.
Ana Clara teve avanços ao longo de quase quatro meses de tratamento e fisioterapia nas mãos. Ela já consegue segurar objetos leves, se alimentar sozinha na maior parte do tempo e voltou a usar o celular, tarefa importante para se comunicar com familiares e amigos.
A jovem revelou ao g1 que passará por um novo procedimento para recuperar o movimento de "pinça", essencial para a coordenação motora.
“A recuperação das mãos também está indo muito bem. Vou passar agora por uma nova cirurgia para soltar os tendões, e aí os movimentos vão ficar bem melhores. É um processo lento. Eu ainda não consigo vestir uma roupa nem tomar banho sozinha, mas na fisioterapia a gente vê bastante avanço”, disse.
A cearense está morando em Fortaleza com a família para facilitar as idas ao hospital e o tratamento físico. A ideia é continuar na capital, onde pretende estudar e se dedicar ao combate à violência contra a mulher.
No último mês, Ana Clara passou por cerca de 15 cidades participando de eventos e palestras. Mesmo relembrando momentos de dor, ela afirma que falar sobre o caso ajuda a superar a tragédia e a recuperar a autoestima.
“No mês de agosto quase todo, eu andei em várias cidades fazendo palestras, falando um pouco da minha história para as pessoas. E a gente vê o absurdo do tanto de gente que passa ou passou pela mesma situação e que, infelizmente, ainda não consegue sair. A violência contra a mulher, a cada dia que passa, está crescendo mais”, afirmou.
Nas palestras, Ana Clara usa o microfone para compartilhar a própria história, mas também para alertar o público sobre a importância de proteger as mulheres e denunciar possíveis agressores.
Ela também reconhece hoje que o antigo relacionamento se encaixa no chamado ciclo da violência, conceito formulado pela psicóloga norte-americana Lenore Walker.
“Isso que eu faço hoje, ser uma pessoa ativista, é uma responsabilidade muito grande. Eu costumo alertar essas mulheres sobre como elas podem perceber os sinais. A agressão não acontece só no extremo, existe um ciclo. Os sinais são, por exemplo, ele dizer: ‘não gosto dessa roupa’, ‘não quero que você vá à casa da sua família’, ‘quero que você pare de estudar’. Eu passei por isso e achava que era amor, mas a gente precisa entender que isso não é amor, não é cuidado”, afirmou.
Grata por estar viva, Ana Clara se diz mais confiante e vê uma oportunidade de recomeçar. Ela ganhou uma bolsa de estudos para o curso de Direito e pretende atuar como advogada voluntária na defesa de mulheres que passaram por situações semelhantes.
Em meio a tantas demandas, ela também encontra tempo para cuidar do emocional por meio da espiritualidade e da fé. Questionada sobre como mantém a serenidade mesmo após o trauma, Ana Clara afirma que sua força vem de Deus, mas não descarta fazer terapia.
“Sei que vai chegar um momento em que eu vou precisar de terapia, mas, no momento, vejo que meu emocional está bem, eu sou forte. Todos os dias eu apago um pouco do que eu passei no dia 1º de maio”, disse.
Outro aspecto do processo de fortalecimento é o cuidado com a aparência. Vaidosa, Ana Clara não abre mão de cuidar dos cabelos, da pele e de escolher looks confortáveis para ir à igreja ou às palestras. Ela diz que deixou a vaidade de lado por um tempo, mas considera importante resgatar esse cuidado nesta nova fase.
“No início, eu ficava um pouco para baixo. Só que, naquele momento, a autoestima não era o mais importante. O importante era a minha recuperação. Mas, hoje, eu me sinto bem, minha autoestima está alta. Estou tendo acompanhamento com dentista. A gente precisa mudar para que a autoestima se encaixe na minha nova fase”, contou.
Aos 21 anos, ela entende que o crime sofrido não define quem ela é. Mesmo após o trauma, afirma estar vivendo “a melhor fase da vida”, ao lado da família e dos novos amigos que conheceu depois da repercussão do caso.
“Posso dizer que estou vivendo a melhor fase da minha vida, infelizmente nessa situação, mas não tenho nada a reclamar, e sim só agradecer a Deus por estar viva e poder ter a chance de recomeçar tudo do zero. Sou uma jovem que sonha, apesar do trauma, em construir uma família, que pensa em conhecer outra pessoa. Mas minha pressa é focar nos estudos e trabalhar por essas mulheres que não têm condições de pagar um advogado”, concluiu.
AI outlook — possibilities, not facts
Ana Clara passará por nova cirurgia para soltar os tendões das mãos
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