A bolha das ações de inteligência artificial está prestes a estourar?
Instabilidade nos mercados globais reacende debates sobre financiamento circular e resistência regulatória a data centers.
Quick Look
Ações de tecnologia enfrentam nova onda de turbulência global em meio a temores sobre a bolha da inteligência artificial e o impacto de votações nos EUA contra data centers, levantando dúvidas sobre a sustentabilidade do setor.
AI-generated summary
Why It Matters
Ações de tecnologia sofreram perdas recentes em meio a dúvidas sobre a sustentabilidade dos investimentos em inteligência artificial e financiamento circular.
A situação está começando a ficar um tanto absurda. Mais uma vez, as ações de tecnologia sofreram fortes perdas nesta semana —a terceira onda recente de turbulência. Elas podem até ter apresentado uma estabilização modesta nesta sexta-feira (6), mas essa instabilidade parece mais preocupante do que os episódios anteriores de nervosismo.
Mais uma vez, mas agora com maior convicção, investidores fazem a mesma pergunta: "Desta vez é para valer? A bolha da IA (inteligência artificial) finalmente está estourando?"
Não afirmo saber a resposta. Pergunte novamente daqui a uma semana, mais ou menos, e saberemos se essa oscilação vai se aprofundar e se espalhar ou se será apenas mais um alarme falso. Mas o fato de todos estarmos fazendo a mesma pergunta outra vez já diz muito.
É evidente que a tecnologia de inteligência artificial funciona. Não há discussão quanto a isso. Mas a internet também funcionou muito bem —e, ainda assim, provocou um colapso dos mercados há 25 anos. (Desculpem se isso faz vocês se sentirem velhos).
Qualquer pessoa razoável consegue identificar sinais de uma euforia insustentável nos ativos ligados à IA, sobretudo nas ações do setor, que têm peso dominante nos mercados americano e global. Há várias possíveis fontes de tensão: níveis elevados de endividamento, estruturas de financiamento cada vez mais complexas, dúvidas sobre o potencial real de geração de receita e exemplos difíceis de explicar de financiamento circular.
Como apontou recentemente o BIS (Banco de Compensações Internacionais), quase 29% dos acordos de investimento de empresas de IA envolvem outras companhias do setor, e mais da metade dos recursos investidos nessas empresas vem de outras empresas de IA. Em uma crise, o financiamento circular pode facilmente se transformar em um confronto em que todos atacam uns aos outros.
Tudo isso já era conhecido e amplamente apontado havia meses como possível origem de uma correção no mercado. O que nunca ficou claro foi o que poderia desencadeá-la.
Uma política americana talvez finalmente seja esse gatilho. A reação inicial às históricas eleições de meio de mandato realizadas nesta semana nos Estados Unidos, que deram vitórias expressivas ao Partido Democrata no Congresso e em disputas estaduais, foi bastante positiva.
As Bolsas subiram no mundo todo, em parte pelo alívio de um resultado claro e sem contestação, em parte pela esperança de que controles e contrapesos mais fortes sobre um presidente imprevisível possam devolver alguma normalidade aos mercados e também pela expectativa de que eleições acelerem o fim da aparentemente insensata guerra no Irã.
O preço do petróleo caiu para menos de US$ 100 (R$ 550) por barril, depois de ter chegado a US$ 118 (R$ 649) no fim do mês passado. Eleitores de diferentes partes dos Estados Unidos enviaram uma mensagem clara de insatisfação com os preços elevados da energia, impulsionados pela guerra, que encarecem o custo de vida —inclusive o de abastecer o carro. A avaliação do mercado é que, de uma forma ou de outra, a guerra precisa acabar, e rápido.
Mas o bom humor nos mercados durou apenas um dia. Isso porque os eleitores também deixaram claro que não gostam da inteligência artificial e, especificamente, que não querem grandes data centers, que consomem enormes quantidades de energia e água, construídos em seus bairros.
A IA esteve em votação em vários estados, com consultas à população sobre propostas para adiar ou restringir a construção dessas instalações. Em quase todos os casos, os eleitores se voltaram contra as grandes empresas de tecnologia.
Um ambiente regulatório e de licenciamento muito mais rigoroso está por vir para um setor que sustenta uma parcela alarmantemente grande da economia americana e dos mercados globais.
Frank Flight, estrategista da Citadel Securities, afirmou em nota na quinta-feira (5) que, em tese, pelo menos parte desses projetos simplesmente será transferida de estados menos receptivos para outros mais favoráveis. Ainda assim, eles deverão sair do papel.
Talvez. Mas isso continua sendo um problema para projetos financiados com grandes volumes de dívida. "Garantir locais alternativos, fornecimento de energia e aprovações leva tempo. Portanto, esse ajuste ainda pode atrasar significativamente a implantação e elevar os custos", afirmou
"Esperamos, assim, alguma moderação no impulso de curto prazo sobre o crescimento e a inflação decorrente das construções e da demanda por recursos associada a elas, além de um impacto menor sobre o investimento acumulado e as necessidades de financiamento."
Empresas de tecnologia diversificadas, sobretudo aquelas que já garantiram capacidade em data centers, estão se saindo relativamente bem nesta nova onda de turbulência. Mas as companhias com negócios concentrados na expansão da infraestrutura de IA vêm sofrendo perdas expressivas.
"Com essas avaliações, o investimento em IA é como um tubarão que precisa continuar nadando para sobreviver", disse Trevor Greetham, chefe de investimentos multissetoriais da Royal London Asset Management.
Antes das eleições de meio de mandato, em outubro, Dario Perkins, da consultoria de pesquisa TS Lombard, traçou um cenário do que poderia ser um verdadeiro colapso dos investimentos em IA.
Naturalmente, boa parte dessa análise envolve especulação, mas ele estima que, em um cenário extremo, as ações americanas poderiam perder pelo menos 30% de seu valor, enquanto as perdas com crédito chegariam a US$ 200 bilhões (R$ 1,1 trilhão), acompanhadas por "uma onda" de calotes de dívidas ligadas ao setor de tecnologia.
No caso das ações, "essas são estimativas conservadoras, que levariam a participação da tecnologia no mercado americano de volta aos níveis anteriores ao lançamento do ChatGPT", afirmou.
Os títulos do governo e as ações de mercados fora dos Estados Unidos se destacam como possíveis alternativas de proteção, acrescentou. É uma análise preocupante, mas também plausível —e, de forma reveladora, os títulos do Tesouro americano já começaram a se valorizar.
Um fim rápido para a guerra no Irã continua sendo a melhor possibilidade para que os mercados recuperem uma base sólida. Mas, em algum momento, o alerta provocado pelos investimentos em IA deixará de ser apenas um alarme falso.
What to Watch
AI outlook — possibilities, not facts
Ações americanas poderiam perder pelo menos 30% de valor em cenário extremo
Speculative · Within months
Open Questions
- A bolha da IA vai estourar?
- Como a regulação de data centers impactará os custos?
- A guerra no Irã terminará em breve?






