
A morte de Rick, da dupla sertaneja Rick e Renner, ocorre em um contexto de quase um século de evolução do gênero, que passou da música caipira rural ao sertanejo universitário e agronejo, incorporando influências estrangeiras, pop, funk e refletindo a urbanização e mudanças sociais do Brasil.
AI-generated summary
A música sertaneja originated in the 1920s as música caipira, reflecting rural life, and has evolved through phases influenced by urbanization, foreign genres like paraguayan guarânia and Mexican ranchera, and movements such as Jovem Guarda, pop, sertanejo universitário and agronejo, becoming a dominant cultural force in Brazil.
Gênero perdeu um de seus expoentes, Rick, da dupla Rick e Renner; em quase um século, música que nasceu retratando a vida no campo incorporou influências estrangeiras, romantismo, pop e funk até se tornar um dos principais fenômenos do país
Por BBC
A dupla sertaneja Rick e Renner em show em 2013 — Foto: Getty Images via BBC
Jonathan Scarello dos Anjos não é um nome conhecido no Brasil. Mas Panda, sua identidade artística, sim: é a voz do hit musical mais ouvido no país atualmente, a sertaneja Eu Te Seguro — segundo o mais recente levantamento da Pró-Música Brasil, entidade representativa do mercado fonográfico nacional, com base na somatória das reproduções de plataformas de streaming.
Mas o sertanejo que está no topo não é exatamente aquela música caipira que começou a surgir em gravações na virada dos anos 1920 para os 1930.
Tampouco a vertente romântica com contornos bregas que fez a fama de duplas como a que Rick — o Geraldo Antônio de Carvalho, que morreu nesta semana em acidente de helicóptero — formou com Renner — nome artístico de Ivair dos Reis Gonçalves.
Como costuma acontecer com exemplos de sucesso da indústria cultural, o gênero se reinventa constantemente conforme o tempo passa.
Os exemplos que sucedem os anteriores são, na definição do historiador Gustavo Alonso, "modernizadores no sentido da antropofagia cultural, de incorporar valores e músicas de outras searas, de outras origens".
Alonso é professor na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e autor do livro "Cowboys do Asfalto: Música Sertaneja e Modernização Brasileira".
"Houve uma transformação estrutural que acompanhou o processo de modernização e o deslocamento do meio rural para o consumo urbano", analisa a especialista Gisele Jordão, coordenadora do curso de cinema e audiovisual da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
Jordão vê o gênero mudando dos versões "que registravam as rotinas do trabalho agrícola" e "causos locais" para "a dor nostálgica do migrante desiludido no meio urbano". Depois, com o avanço da fronteira pecuária para o Centro-Oeste, uma exaltação do "heroísmo do boiadeiro".
Gradualmente, as canções sertanejas passaram a incluir "narrativas das culturas de massas" e se afastar "das referências rurais", dando mais ênfase aos "sentimentalismos amorosos".
Por fim, neste século, veio a ênfase em "paqueras, bebidas, desencontros e consumo ostentatório".
A gravação pioneira
Em geral, entende-se como uma espécie de marco fundador da música sertaneja no Brasil o episódio que tornou o gênero acessível enquanto produto de consumo de massa: a primeira gravação de uma canção do segmento, no caso a música "Jorginho do Sertão", composição do jornalista e folclorista Cornélio Pires (1884-1958) a partir de fragmentos de causos populares, na voz da dupla Mariano e Caçula. Foi em 1929.
"Nenhuma gravadora queria gravar música caipira. Cornélio Pires alugou um estúdio e pagou a prensagem do próprio bolso", enfatiza a empresária artística Anita Carvalho, fundadora da escola Music Rio Academy e pesquisadora da ESPM.
"Para mim isso é o primeiro lançamento independente da história da música brasileira, e diz muito sobre o quanto a indústria erra ao julgar o que o público quer."
Mariano e Rubens da Silva, o "Caçula", eram irmãos e viviam em Piracicaba no interior paulista. A música que eles entoavam era aquela conhecida como moda de viola.
Nesses quase cem anos que se passaram, o sertanejo atravessou fases distintas e pode ser entendido não só como fenômeno musical: o gênero deixa pistas, a partir do seu sucesso e de sua disseminação, para compreender a sociedade e a urbanização brasileira.
Professor na Universidade de São Paulo (USP), o violeiro e pesquisador Ivan Vilela divide o sertanejo em cinco grandes fases — Vilela é autor do livro "Cantando a Própria História: Música Caipira e Enraizamento" e apontado como o grande especialista no tema.
Os primeiros passos do gênero enquanto produto vai da gravação de Mariano e Caçula até a década de 1940. "A radiodifusão dessas músicas ajudou no processo de re-enraizamento dos migrantes que trocavam o campo pelas cidades grandes", pontua.
Vilela nota que esse período viu o nascimento da profissionalização dos cantores. Foi o caso de Raul Torres (1906-1970), paulista de Botucatu que cantava mas pretendia conciliar a vida artística com a profissão de farmacêutico.
Torres acabou vendo que a música era um bom filão e deixou o balcão para trás — chegou a formar dupla com um sobrinho, mas fez história mesmo com Florêncio, nome artístico de João Batista Pinto (1910-1971).
"Ele cantava embolada, mas percebendo que havia espaço de trabalho muito grande [para a música caipira], acabou entrando no segmento", diz Vilela. Ou seja: a música caipira deixava de ser uma expressão de gente da roça; virava entretenimento que seguia a lógica de oferta e demanda do mercado.
"[Foi quando] a música caipira consolidou-se no mercado fonográfico, sobretudo, com o trabalho de músicos urbanos que passaram a se dedicar ao gênero", comenta o violeiro e pesquisador Leandro Valentin, doutor pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e atualmente escrevendo a biografia do cantor sertanejo Tião Carreiro (1934-1993).
Estima-se que, naquela época, o gênero já dominava 40% da incipiente indústria fonográfica brasileira.
O sucesso Tonico & Tinoco
"A segunda fase veio com a música já difundida pelo rádio, com a produção chegando também a cidades pequenas e zonas rurais", explica o professor da USP.
A música que nasceu no campo, migrou para a cidade cantando o campo e agora voltava ao campo empacotada pelas ondas radiofônicas.
O maior nome dessa fase, segundo Vilela, é a dupla Tonico & Tinoco. Foi um retumbante sucesso. Eram os irmãos João Salvador Perez (1917-1994), nascido em São Manuel, e José Salvador Perez (1920-2012).
Na profícua carreira, gravaram quase 1 mil canções, lançaram 83 discos, venderam milhões e milhões de cópias e fizeram mais de 40 mil shows.
Para Vilela, essa dupla significou o início de um processo de furar a bolha — e a música caipira passou a ser ouvida até por pessoas que não tinham relação alguma, nem afetiva nem biográfica, com o mundo rural.
Ele estima que Tonico & Tinoco tenham vendido cerca de 150 milhões de discos, no total. "Somados todos os formatos, são a dupla que mais vendeu discos no mundo", crava.
"É quando se firmou com mais força um padrão: a dupla, o violão e a viola, não mais instrumentais de choro que se usavam antigamente", diz Vilela.
"Os músicos eram caras da roça que cresceram ouvindo pelo rádio e agora compunham com características muito masi rurais, incorporando ritmos como catira, folia de reis."
Se na primeira leva, os sertanejos narravam o dia a dia rural, na segunda essa vida no campo passa a ser vendida com contornos de saudade — afinal, o público já se consolidava também nas cidades e tinha aquele ideal imaginário do bucolismo como válvula de escape sentimental.
"A vida no campo e o êxodo rural são tematizados com uma dose de nostalgia e coexistem com o romantismo que começa a ganhar força aos poucos", nota Valentin.
Vilela contextualiza. No início, eram os migrantes, "gente da roça que [tinha se mudado para as cidades mas] via valores na roça" os que ouviam sertanejo. Depois, "com esse povo já vivendo todo na cidade, as narrativas passam a ser anacrônicas".
"O público de Tonico & Tinoco, a grande linha de vendagem já era o urbano, então eram histórias de saudade", comenta.
"O termo música sertaneja se tornou hegemônico a partir dos anos 1950", pontua Alonso. "Antes, desde a primeira gravação de 1929, se falava música caipira, música do interior, música do sertão, música do campo…"
Nessa década, o gênero incorporou elementos estrangeiros, sobretudo da guarânia paraguaia e da ranchera mexicana.
"Esses gêneros dialogaram com as culturas locais e alguns vão se tornar adeptos", explica o historiador. "Nessa fase, houve o uso cada vez mais demarcado de ritmos tradicionais como o recortado, o cururu e o cateretê", acrescenta Valentin.
Jovem Guarda e o romântico exagerado
Nos anos 1960, a música sertaneja passou por outra grande transformação. O Brasil já tinha um processo bastante consolidado de êxodo rural e o mercado fonográfico entendeu que os novos ouvintes do gênero, os filhos dos migrantes, eram já nascidos nas grandes cidades.
"Eles tinham uma educação tradicional em casa e uma educação moderna nas ruas, no trabalho, na escola. Para eles, foi criada uma música que juntava vertentes da Jovem Guarda com a música caipira", conta Vilela. "Na terceira fase, a música caipira deixa de ser cronista do mundo rural e se torna também cronista do mundo urbano."
A primeira dupla desse subgênero foi Léo Canhoto & Robertinho, respectivamente Leonildo Sachi (1936-2020) e José Simão Alves, hoje com 82 anos. Para Valentin, foi "uma tentativa de modernização do sertanejo, seja com o uso de guitarras elétricas, seja com uma ênfase a elementos tipicamente mexicanos na sonoridade das canções, e com uma presença cada vez mais marcante da temática amorosa na letra das canções".
A guinada pop viria nos anos 1980 — obra principalmente dos esforços comerciais da gravadora Sony. "[Os executivos das gravadora] perceberam que a música caipira poderia receber um novo tipo de vestimenta, roupagem sonora e visual, e aí iniciou-se a vertente chamada hoje de sertanejo romântico", comenta Vilela.
"Neste balaio estão sucessos incontornáveis como Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano, João Paulo & Daniel, entre outros. Rick & Renner entram na derivação do sertanejo romântico, embora tenham vindo um pouco depois", pontua Vilela.
Valentin diz que somente nessa fase "o sertanejo foi finalmente aceito pela grande mídia como o gênero mais popular do país, embora já o fosse havia décadas".
"Nessa época houve a incorporação do brega enquanto estilo, como gênero musical", afirma Alonso. Era o amor exagerado. "Uma fixação. Hoje chamamos de sofrência, na época era 'música de corno' mesmo."
Era uma época de jabá institucionalizado e uma indústria ávida por novidades. "O mercado já estava muito voraz, em cima da produção musical", avalia Vilela.
"O romântico acompanha o pagode da época, também romântico, e segue uma vertente da música romântica norte-americana que ganhou muito campo nos anos 1980", analisa o professor e violeiro.
Universitário e agro
Na virada do século surge o estágio atual do sertanejo, chamado de sertanejo universitárIo. O gênero fica pop, à media que o pop internacional também é incorporado e "vira norteador", complementa o professor da USP.
"Eles são astros pop, tocam música pop em língua portuguesa, da maneira deles, mas a ideia é essa", resume.
Valentin explica o sertanejo universitário como um momento de "fusão crescente com estilos como o pop, o rock e o axé". "E a temática das letras passa a dialogar cada vez mais com o público jovem urbano, com uma abordagem que transita entre o romantismo tradicional e a efemeridade de relações amorosas contemporâneas", pontua.
É uma safra longa que já tem muitos desdobramentos.
Caso do feminejo, surgido mais ou menos 10 anos atrás. Trata-se de um movimento em que mulheres — que sempre foram minoritárias entre os artistas do gênero — se tornaram as vozes mais ouvidas. Marília Mendonça (1995-2021), Maiara & Maraísa, Simone & Simaria, Naiara Azevedo, Paula Mattos e Paula Fernandes são as maiores expoentes.
Mais recentemente, há o chamado agronejo, o subgênero que alimenta uma idolatria, em geral não crítica e subserviente, ao agronegócio. "São artistas que defendem a cultura do latifúndio e todas essas derivações", aponta Vilela. "Houve uma apropriação pela extrema-direita."
O professor acredita que boa parte do setor esteja ligado a problemas de corrupção, por meio de uma lógica de cachês milionários em shows bancados por prefeituras e empresas ligadas ao agro em todo o país.
O agronejo, lembra Valentin, incorpora "batidas eletrônicas e traços do pop e do funk ao sertanejo". "Não raro, a ostentação e os aspectos sensuais de relações amorosas efêmeras ou casuais são tematizados nessa fase", diz ele.
"A música sertaneja contemporânea é a música das cidades pequenas e médias. Grande parte desses caras vieram das cidades pequenas e médias. O Brasil se tornou um país de cidades pequenas e médias", analisa o historiador Alonso, lembrando que as cidades grandes "pararam de inchar" nos anos 1990 e são as demais que crescem econômica e demograficamente desde então. "De certa forma, a música sertaneja retrata esse fenômeno."
E segue antropofágica, incorporando novas estéticas. "Cada geração nova faz isso a seu modo. 'Ai Se Eu Te Pego' [que fez sucesso com Michel Teló] é um forró. Você tem exemplos que são funk, tem reggaeton e agora o agronejo grava até música eletrônica", comenta o historiador.
"Eles vão incorporando outras estéticas, de outros gêneros. É o que faz o sertanejo se tornar um grande guarda-chuva geral de gêneros popularzões."
A ideia da dupla
Embora dentre os nomes atuais esteja longe de ser unanimidade, a ideia da "dupla caipira" como símbolo do gênero permanece no imaginário. Segundo Vilela, essa forma de cantar "tem origem nos primórdios das gravações de música caipira", sempre com a ideia "de dois cantando juntos, muitas vezes irmãos".
"A questão da dupla tem a ver com o canto em terças. Eles cantam em terças, ou seja, se um canta em dó, o outro canta em mi", explica Alonso. "Isso é padrão desde que se fazia música caipira lá atrás, antes mesmo de a indústria cultural abraçar o gênero." Ele observa que, curiosamente, o modelo do sertanejo universitário não mais prefere as duplas — a maioria dos astros faz carreira solo.
Nessa perspectiva, não foi o olhar do gênero que mudou, mas sim o objeto. O mundo rural virou agronegócio — e a música acompanhou isso.
"[A música caipira] é uma etnomúsica que traz traços muito característicos, instrumentais e de ritmos. São 17 ritmos presentes no universo da música caipira", enaltece Vilela.
AI outlook — possibilities, not facts
O sertanejo continuará a incorporar novos gêneros como eletrônico e funk, mantendo sua natureza antropofágica.
Likely · Within months
O debate sobre a relação entre agronejo e ideologia política vai intensificar-se nos próximos meses.
Possible · Within months

Marina Iris launches the album 'Banzo batucada' in honor of the composer Wilson Moreira Serra, with 18 sambas, appearances by Teresa Cristina, Zeca Pagodinho and Jorge Aragão, and new tracks that rescue little-known works by the artist.

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