
Documentos históricos que definem a identidade nacional passam por rigorosos processos de conservação na ABL e na UFRJ.
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O Hino Nacional Brasileiro teve sua letra oficializada em 1922, enquanto a melodia foi composta em 1831 originalmente como Hino ao 7 de Abril.
O Hino Nacional Brasileiro, um dos principais símbolos da identidade do país que celebra os 204 anos de Independência nesta segunda-feira (7), tem seus registros originais preservados em instituições do Rio de Janeiro.
O manuscrito da letra, que reúne a versão definitiva escrita por Osório Duque-Estrada, integra o acervo da Academia Brasileira de Letras (ABL), e o g1 visitou a sala do arquivo.
Para manter o documento com suas características originais, procedimentos rigorosos são adotados. Entre as medidas estão o manuseio exclusivo com luvas, o controle de temperatura e umidade e o armazenamento em materiais apropriados para evitar a deterioração do papel.
Já a partitura original da melodia, composta por Francisco Manuel da Silva, está sob os cuidados da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Lá, o manuseio com luvas e o cuidado redobrado também é o padrão.
No arquivo da ABL, o manuscrito da letra traz a data de 3 de agosto de 1922, a pouco mais de 1 mês de a composição ser oficializada como a canção nacional por meio do decreto de 6 de setembro daquele ano, na véspera do centenário da Independência do Brasil.
“A documentação recebe um tratamento específico. Ela é acondicionada em papel de pH neutro para reduzir os riscos de deterioração. Como o próprio papel já é ácido, precisamos utilizar um material que contribua para a conservação do original”, explicou Maria Ribeiro, chefe do Arquivo Múcio Leão, da ABL.
O manuscrito também passou por um processo para interromper os danos provocados pela tinta utilizada na escrita.
“É uma tinta ferrogálica, que contém ferro na composição. Alguns documentos precisam passar por um tratamento para interromper esse processo de deterioração, porque a tinta pode corroer o papel. Por isso realizamos esse trabalho”, afirmou Maria.
Poeta, crítico, professor, ensaísta e teatrólogo, Osório Duque-Estrada nasceu em Vassouras, no interior do Estado do Rio de Janeiro, ainda durante o Império. Ele ingressou na Academia Brasileira de Letras em 1915 e foi o 2º ocupante da cadeira 17, atualmente pertencente à atriz Fernanda Montenegro.
O espaço que abriga o manuscrito do hino tem acesso restrito a poucos funcionários. O ambiente foi projetado especificamente para a guarda de acervos e conta com controle permanente de temperatura e umidade, além de um rígido sistema de prevenção contra incêndios.
“É uma sala totalmente construída para guardar acervo, com foco na segurança e na preservação. O ar-condicionado é monitorado 24 horas por dia e funciona para controlar a temperatura e a umidade”, disse Maria Ribeiro.
Os mesmos cuidados dedicados ao manuscrito do hino são aplicados a outros documentos históricos guardados pela academia. Entre eles estão originais de autores como Machado de Assis, João Ubaldo Ribeiro e Guimarães Rosa.
“Todo documento ou livro que chega à ABL passa antes por um processo de higienização. Depois disso, segue para os acervos e retorna ao núcleo de conservação para os procedimentos necessários. Nem sempre é preciso restaurar uma peça; muitas vezes realizamos apenas a conservação preventiva”, explicou Renata Albino, arquivista e restauradora da instituição.
Embora o hino na forma atual tenha pouco mais de 100 anos, a melodia é muito mais antiga que a letra. A composição musical foi criada em 1831 por Francisco Manuel da Silva com o nome de Hino ao 7 de Abril, em referência à abdicação de Dom Pedro I.
“Do ponto de vista rítmico, destacam-se as figuras pontuadas e o andamento de marcha, características típicas dos hinos. Esteticamente é vinculado à música operística italiana, que era o gênero mais popular no Rio de Janeiro do século 19”, afirmou o professor e maestro André Cardoso, da UFRJ.
A 1ª letra era de autoria do poeta Ovídio Saraiva. Em 1841, durante a coroação de Dom Pedro II, a melodia ganhou outra versão textual, cujo autor permanece desconhecido.
“A melodia se consagrou e caiu no gosto popular. Apenas em 1922, durante as comemorações do Centenário da Independência, foi oficializada a letra definitiva”, explicou o maestro sobre a composição do Osório Duque-Estrada.
Os autores da música e da letra nunca se conheceram. Francisco Manuel da Silva morreu 5 anos antes do nascimento de Osório Duque-Estrada. A versão atual do hino também contou com a contribuição de Alberto Nepomuceno, responsável pela padronização da melodia.
“A melodia do hino foi padronizada por Alberto Nepomuceno. A letra de Osório Duque-Estrada foi criada para a melodia de Francisco Manuel da Silva, com a prosódia perfeitamente adaptada”, destacou Cardoso.
Para o maestro, a preservação do manuscrito da letra e da partitura original é fundamental para a memória histórica do país.
“São documentos de enorme importância histórica, especialmente o manuscrito da música, que se consolidou junto ao público a ponto de ser mantido mesmo quando o primeiro governo republicano tentou substituí-lo”, afirmou.
Cardoso avalia ainda que o Hino Nacional continua cumprindo seu papel como símbolo de identidade coletiva.
“São também documentos que remetem a momentos históricos da vida nacional. Apesar da letra parnasiana, típica da época na qual foi elaborada, é um hino popular, cantado a plenos pulmões pela população nos jogos da seleção brasileira e em manifestações políticas, ou seja, desperta sentimentos de nacionalidade que vinculam o povo com sua terra, sua cultura e sua história”.

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