Governo de Giorgia Meloni torna-se o mais longo da história republicana da Itália
Quick Look
O governo de Giorgia Meloni completa 1.413 dias no poder nesta sexta-feira (4), tornando-se o mais longo dos 80 anos da Itália republicana, fruto de uma coalizão de direita vitoriosa nas eleições de 2022, com comemoração prevista em Bari e desafios futuros incluindo eleições em 2027 e pressões internas da aliança.
AI-generated summary
Why It Matters
Antes de Meloni, o segundo governo de Silvio Berlusconi (2001-2005) era o mais duradouro do pós-Segunda Guerra. Nos 16 anos que antecederam sua vitória em 2022, a Itália teve nove formações de governo e oito primeiros-ministros diferentes, com quatro eleições e frequentes recomposições de coalizão sem consulta aos eleitores.
O governo de Giorgia Meloni se torna nesta sexta-feira (4) o mais longo dos 80 anos da Itália republicana. Formado por uma coalizão de direita que saiu vitoriosa das eleições de 2022, o governo completará 1.413 dias no poder, um fato excepcional para o país e, nos últimos anos, um diferencial em relação a outros Estados europeus.
Para comemorar, o partido fundado por Meloni, Irmãos da Itália, prepara uma festa com ares de comício na sexta, em Bari, no sul do país. São esperados cerca de 10 mil apoiadores, além de manifestações contrárias. O discurso da primeira-ministra será um indício do tom da campanha eleitoral dos próximos meses. Os italianos votam em 2027, ainda sem data definida.
Meloni costuma enaltecer a estabilidade política como uma das principais conquistas obtidas por ela. Antes, o segundo governo de Silvio Berlusconi, entre 2001 e 2005, tinha sido o mais duradouro do pós-Segunda Guerra.
Nos 16 anos que antecederam a vitória de Meloni nas urnas, o país teve nove formações de governo, com oito primeiros-ministros diferentes. Nesse período, os italianos foram às urnas quatro vezes. Em três das quatro legislaturas, o sistema político se recompôs, após crises e disputas internas, em novas coalizões majoritárias sem que os acordos passassem pelos eleitores. Foi assim, por exemplo, que surgiu o governo de Mario Draghi, anterior ao de Meloni.
Entre os fatores que explicam a atual estabilidade está justamente o resultado de 2022. A coligação liderada por Meloni, Matteo Salvini (Liga) e Berlusconi (Força Itália) recebeu 43% dos votos. Desde 2008 não havia uma vitória tão nítida para a formação do governo.
Meloni soube desfrutar disso e do fato de seu partido ser o mais forte dentro da aliança. "Ela sabe comandar a coalizão. Conseguiu manter Liga e Força Itália juntos, com grande capacidade política e organizativa, combatendo impulsos mais extremistas", diz Gianfranco Pasquino, professor emérito de ciência política da Universidade de Bolonha.
Desde a posse da primeira-ministra, Berlusconi morreu e foi substituído por Antonio Tajani no comando do Força Itália. Salvini se tornou um líder enfraquecido, inclusive dentro da Liga. Os dois vice-premiês representam papéis quase opostos. Tajani, de centro-direita, é o mais europeísta dos três, enquanto Salvini, de ultradireita, é contra o apoio à Ucrânia, na linha contrária a Meloni.
Mesmo assim, a aliança já dura quase quatro anos. "Eles continuam de pé porque é uma questão de sobrevivência. Se perderem o poder, em uma crise de governo, há o risco de vitória da centro-esquerda. Então, continuam compactos apesar das diferenças", diz Pasquino.
Outro ponto que favoreceu a permanência no poder foi a transição que Meloni soube fazer de candidata de oposição eurocética a líder conservadora pragmática. "Ela se mostrou prudente, seja no plano fiscal, seja nas relações internacionais. E conseguiu amortizar choques, como o energético, causados por guerras, e até com Donald Trump", afirma Lorenzo Castellani, cientista político e professor na universidade Luiss Guido Carli, em Roma.
Fundadora de uma legenda com raízes no pós-fascismo, Meloni formou um gabinete com nomes moderados em ministérios importantes e respeitou a Constituição. Tentou mudá-la uma vez, por meio de um referendo sobre questões do Judiciário, mas foi vencida pelo voto popular —sua maior derrota, em março deste ano.
O governo se posicionou como "lei e ordem", aprovando no Parlamento novas tipificações de crimes e penas mais severas para responder a questões de segurança. Ao mesmo tempo, não abriu espaço para o avanço de direitos civis e sociais. A Itália está na parte mais baixa do ranking europeu que mede direitos e discriminação contra pessoas LGBTQIA+.
Para a duração do governo, Meloni contou ainda com uma forcinha da oposição, distraída em divisões internas. "A oposição jamais conseguiu desafiá-la em questões concretas. Tirando a derrota no referendo, Meloni sempre teve na mão a agenda da discussão política", diz Castellani.
Como resultado da tão almejada estabilidade, a primeira-ministra pode celebrar a baixa taxa de desemprego, em 5,8%, dois pontos percentuais a menos do que quando assumiu.
O pós-pandemia contou com recursos da União Europeia, dentro do plano de recuperação, com € 194 bilhões (R$ 1,1 trilhão) à Itália. Apesar de não ter estimulado muito o crescimento, o plano foi administrado sem problemas pelo governo, o que não era uma certeza.
Da parte negativa, o PIB italiano deve crescer 0,5% neste e no próximo ano, abaixo da estimativa para a zona do euro. "A grande indústria, pública e privada, não está em ótimo estado", diz Castellani. Na percepção da população, os principais problemas são hoje violência (38%) e saúde (34%), segundo levantamento Ipsos.
Outro resultado foi a diminuição dos desembarques de imigrantes em situação irregular pelo Mediterrâneo, com queda de 58% entre 2023 e 2025. No ano passado, porém, foram registrados mais de mil mortes e desaparecimentos em águas italianas.
Meloni, no entanto, não conseguiu avançar em suas propostas de reforma. Além da derrota no referendo, o governo desacelerou a iniciativa de eleição direta para primeiro-ministro, enquanto tramitam no Parlamento outras mudanças na lei eleitoral. Nos dois casos, há divergências entre as siglas da coalizão, que poderiam causar rachaduras no governo.
"É preciso dizer que os eleitores de Meloni não pedem reformas, eles pedem proteção e que o governo intervenha menos", diz Castellani.
Quase quatro anos depois, o partido de Meloni atrai os mesmos 26% de intenção de voto, por enquanto resistindo a crises e a novas ameaças, como o movimento de ultradireita recém-lançado pelo ex-general Roberto Vannacci, que subiu para quarto lugar nas pesquisas.
Segundo o cientista político, Meloni, no evento de sexta e durante a campanha eleitoral, vai basear seu pedido de votos na estabilidade alcançada. "Vai se apresentar como alguém capaz de governar e manter unida uma coligação, à diferença da centro-esquerda e de Vannacci", afirma Castellani.
What to Watch
AI outlook — possibilities, not facts
Giorgia Meloni buscará reeleição em 2027 baseando sua campanha na estabilidade política alcançada.
Likely · Within months
A coalizão de direita permanecerá unida apesar das diferenças internas entre Liga e Força Itália.
Possible · Within months
Open Questions
- A coalizão de direita conseguirá manter a unidade diante das diferenças entre Tajani e Salvini?
- Meloni conseguirá avançar com suas propostas de reforma eleitoral apesar das divergências na aliança?
- Como o baixo crescimento do PIB afetará a percepção de sucesso do governo apesar da baixa taxa de desemprego?







