Livro 'Entre Crises' desafia visão simplista do desenvolvimento econômico brasileiro
Quick Look
- O livro 'Entre Crises', de Leonardo Weller e Thales Zamberlan Pereira, da FGV, analisa o desenvolvimento econômico do Brasil desde 1930, contestando a narrativa de um 'período áureo' seguido de 'décadas perdidas'.
- Os autores mostram que, apesar do baixo crescimento do PIB per capita após 1980, houve avanços sociais significativos, como a redução da pobreza de 45% em 1984 para menos de 10% em 2014 e a convergência da expectativa de vida com os EUA.
- Eles atribuem esse paradoxo à manutenção de políticas públicas como o SUS e o Bolsa Família, mesmo em meio a crises, e apontam para o legado do crescimento desigual e rentista da ditadura como entrave à produtividade pós-1980, enquanto o regime democrático conseguiu redistribuir renda e ampliar serviços públicos, albeit com custos fiscais crescentes.
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Why It Matters
O livro 'Entre Crises' surge em um contexto de debate sobre o desenvolvimento econômico do Brasil, contestando a visão tradicional que divide a história do país em um 'período áureo' de crescimento (1930-fim da ditadura) e 'décadas perdidas' pós-1980. Os autores, professores da FGV, utilizam dados de PIB per capita, produtividade, expectativa de vida e pobreza para propor uma nuance nesse contraste.
O mais novo manual de história econômica na praça, escrito por uma dupla de professores da Escola de Economia de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas, traz novidades importantes sobre o passado recente do país.
Leonardo Weller e Thales Zamberlan Pereira (que publicou um livro com o responsável por esta reportagem), autores de "Entre Crises", buscam convencer o leitor de que está errado o contraste simplista –ainda muito repetido– entre um período áureo de desenvolvimento econômico, que vai da década de 1930 ao fim da ditadura, de um lado, e décadas perdidas, desde então, nas quais temos feito pouco mais do que patinar, sem sair do lugar.
O contraste precisa ser matizado, mostra o livro.
É verdade que, se comparamos as taxas de crescimento do PIB per capita e da produtividade da economia nos dois períodos, não há dúvidas de que elas avançaram bem mais no miolo do século 20.
Entre 1981 e 2023, o PIB per capita cresceu em média menos de 1% ao ano, enquanto nas quatro décadas entre 1941 e 1980, a renda havia avançado a um ritmo muito maior, de mais de 4% ao ano. Como é possível relativizar diferenças dessa magnitude?
Ora, esses números, por mais impressionantes que sejam, não contam toda a história. Apesar do veloz crescimento do PIB nas décadas anteriores, em 1980 a expectativa de vida do brasileiro era de 62,5 anos. A mesma dos Estados Unidos em 1940.
Essa diferença de quatro décadas na evolução da expectativa de vida tinha se mantido constante, aliás, desde 1940, quando começa a série histórica do IBGE. Apesar de todo o crescimento do período, o avanço social do país foi lento.
O contrário aconteceu no período seguinte. Apesar da produtividade que andava de lado, o Brasil conseguiu reduzir radicalmente a pobreza.
Em 1984, 45% da população vivia com uma renda que não permitia comprar uma cesta de alimentos capaz de suprir o consumo mínimo de calorias diárias. Três décadas depois, em 2014, menos de 10% dos brasileiros estavam abaixo dessa linha de pobreza.
O livro de Weller e Pereira se propõe, assim, a explicar esse aparente paradoxo. Como um período marcado por baixo crescimento econômico, encapsulado entre duas das maiores crises da nossa história –a crise da dívida, no início dos anos 1980, e a do governo Dilma, na década de 2010– foi também a época em que o Brasil virou um outro país, muito menos desigual, socialmente?
Weller disse ter tido clareza sobre qual deveria ser o enquadramento do livro (e as perguntas que ele deveria responder) logo depois da pandemia.
O economista percebeu então que, apesar de tudo –das crises e do baixo crescimento do governo de Jair Bolsonaro–, as políticas públicas de sucesso, como o SUS e o Bolsa Família, "não tinham sido desmanteladas".
"Você veja a evolução dos índices sociais durante a pandemia, e até antes, na crise da Dilma", observou o economista.
"Mesmo depois dessas crises, a gente não voltou à situação horrorosa de décadas antes, do período anterior aos anos 1990, em índices sociais. O que teve foi uma piora significativa, aumento da pobreza, é verdade, mas a gente já tinha virado um outro país."
A percepção de que uma mudança significativa havia ocorrido justo no período democrático, na Nova República, nomeada no subtítulo do livro, colocou em perspectiva uma experiência geracional de Weller. O economista completará 50 anos em 2027 (Pereira, seu coautor, é um pouco mais novo, mas da mesma geração).
Na faculdade, cursada nos anos 1990, recorda-se Weller, era comum ouvir de professores mais velhos avaliações nostálgicas do período de rápido crescimento no século 20, nostalgia que de alguma maneira abarcava também a ditadura.
"Eu me lembro de professor falando assim: ‘De vez em quando eu olho para vocês e tenho pena. Na minha época, a economia crescia". Esse sempre foi um pouco um mantra da nossa geração, sabe?", disse Weller.
Não precisava ter tanta pena, é o que se conclui da leitura de "Entre Crises". O atraso relativo entre Brasil e Estados Unidos na expectativa de vida, que havia se mantido em 40 anos de distância, entre 1940 e 1980, caiu pela metade em 2018, Weller e Pereira escrevem.
"A expectativa brasileira era de 76,3 anos em 2018, justamente antes da pandemia, igual à dos Estados Unidos em 1998, 20 anos antes."
Nem havia tantos motivos para se ufanar. Sim, o país cresceu mais entre 1930 e 1980, disse Weller, mas deixou uma conta salgada a ser paga por quem veio depois.
"O Brasil teve crescimento consistente, incremental, durante algumas décadas no pós-guerra, mas foi um crescimento que faliu o Estado, foi um crescimento que não proveu bens públicos, foi horroroso com a educação, foi um crescimento que concentrou a renda e deixou o país com uma economia que torna um crescimento constante muito mais difícil."
Parte da explicação para o cenário pós-1980 vem daí. O tipo de crescimento desigual, sem investimento em capital humano, que já era a marca no período 1945-1964, foi aprofundado durante a ditadura.
Uma das heranças desse modelo de crescimento foi a dificuldade de crescer, mais tarde, quando a transferência de mão de obra do campo para a cidade chegou ao fim.
A herança do período também se fez sentir nos entraves ao aumento da produtividade.
"A desigualdade, depois de décadas de crescimento muito concentrador de renda, muito criador de oligopólios, de grandes grupos empresariais relacionados ao Estado, fez com que a gente criasse uma elite 'rent-seeking'", resumiu o economista, fazendo referência aos ganhos advindos de benesses estatais, como subsídios e proteções comerciais.
O livro de Weller e Pereira começa em uma crise provocada pelo dirigismo estatal da ditadura, que tomou empréstimos externos para manter o crescimento em "marcha forçada" e depois não teve como pagá-los, e termina com outra crise, a do governo Dilma, causada, na síntese de Weller, em boa medida por gastos excessivos "com subsídio para uma indústria estagnada produtivamente".
Segundo o economista, a deterioração fiscal da primeira metade da década de 2010 está na conta da chamada "Bolsa Empresário, de uma elite rent-seeking que não aumenta a produtividade".
Essa elite rentista, que vive de subsídios e proteções estatais, cevada na ditadura e mantida gorda na Nova República, ajuda a explicar o baixo crescimento da produtividade desde 1980, afirma Weller.
"Essa elite tem uma economia política, está no Congresso, com seus interesses. Isso acontece em todos os lugares do mundo, só que no Brasil é mais forte. E faz com que políticas industriais fracassadas permaneçam."
Mesmo com essa limitação, o regime democrático fez o que se espera dele: pressionado pelo voto, atendeu à maioria dos cidadãos, gerando mais redistribuição de renda do que no período anterior, bem como serviços públicos de saúde e educação voltados para a maioria da população.
Na história contada por Weller, o aparente paradoxo da conciliação de baixo crescimento econômico e avanços sociais se explica politicamente. De alguma maneira, a Nova República conseguiu conciliar os interesses de uma elite econômica rentista (que prejudicou o avanço da produtividade) e os da maioria da população, agora com poder de voto, que precisava ser incluída.
Os custos desse arranjo foram gastos crescentes e déficits recorrentes. O modelo parece ter encontrado seu limite.
"Depois de anos e anos de expansão fiscal, o nosso espaço fiscal ficou muito mais reduzido", afirma Weller. "A dívida pública é muito mais alta do que era 20 anos atrás. Então está mais difícil agora, com certeza, fazer distribuição de renda com políticas que geram gastos públicos e, ao mesmo tempo, ter crescimento econômico."
Open Questions
- Como as políticas de redistribuição de renda podem ser sustentáveis diante do aumento da dívida pública?
- Qual é o caminho para aumentar a produtividade sem reativar os entraves do modelo rentista?
- Como o modelo de conciliação entre elite rentista e maioria populacional pode evoluir diante das restrições fiscais?







